Eu, Escuridão: Eu.
Porque é que a escuridão tem uma conotação negativa?... Não entendo. Há que temer o desconhecido, não o escuro.
Escuridão...Senão fosse esse estado de desiluminação então nunca saberiamos o que era a luz...
Escuridão não é o oposto à luz, tal como não é a posição antagónica da salvação. Não é! Escuridão é um modo de vida, por assim dizer, é um estado, é uma filosofia, é uma característica, é um direito, é uma inspiração. É, nada mais nada menos, do que aquilo que rodeia a minha alma e o meu ser. Escuridão é amor. Da escuriudão surgem raios de luzes coloridas de paixão e de amor. Da escuridão surge a matéria, e por si a origem da luz. A escuridão é Mãe, a minha Mãe Noite, que alberga o Cosmos que Nos originou.
Escuridão é solidão. Escuridão é estar rodeado de amor. Escuridão é apreciar o significante da vida. Escuridão é apreciar uma melodia, uma paisagem, um saber, um ser...o que for. Escuridão é fonte de vida, é causa de morte, é causa do fim, é origem do inicio, inicia o nunca e termina o sempre.
Escuridão é roxo, é azul, é verde, rosa, vermelho, castanho, amarelo, branco, preto, laranja...
Escuridão é um cavalo a correr na praia ou num amplo campo. Livre! Escuridão é um tubarão a nadar graciosamente no seu reino, que é o mar. Escuridão é um lobo que uiva à luz da Lua, marca a sua presença no mundo e a sua melodia será recordada por todos os que tremeram ao som da sua alma. Sim, um lobo também tem alma, por mais selvagem que seja.
Escuridão é, também, o nascer e o pôr-do-sol, as ondas a erodir a costa, as searas de trigo a oscilar ao vento, o pelo de um gato a voar pela janela, o sal a solidificar depois de exposto a horas de calor, a lava a escorrer pela estrutura vulcânica tão bela que é um vulcão, o mar gelado a dificultar a navegação dos barcos, a terra a tremer quando uma batalha deixa as suas marcas para a eternidade, o fogo a corroer a carne e a alma das suas vitimas, o calor de um dia de verão, o gelo nórdico que cega a vista...
Escuridão dá utero à gestação de sentimentos tão puros e inocentes como o amor, o ódio, a amizade, a devoção, a fé... Quando um deles nasce encorpora uma nova parte da alma do Filho da Noite que teve a honra de o receber, de o sentir e de o poder partilhar...
E então, deste modo, escuridão é um beijo entre amantes devotos e fiéis ao pôr-do-Sol, a caricia de um pai ao ver o seu filho triunfar, o choro de uma avó que procura com desespero o pequeno neto que se perdeu, a amiga que abraça e chora a tristeza do amigo, a união calorosa de dois corpos que se desejam e duas almas que vivem de devoção uma pela outra...
Escuridão, Mãe Noite, que me abrigas em toda a tua luz. És bela e bestial. És vida, és morte. És o caminho, és a perdição. És forte, és fraca. És O nada. És O tudo. És eu. Eu Sou Tu.
Eu, Escuridão: Eu.
Muito escuro, não foi? Pois é, mas espero que as metáforas tenham sido explícitas.
Este foi um texto da alma.E assim me introduzo e mostro ao mundo o lado negro das fraldas: o cócó!

1 comentário:
A escrita tem poucos defeitos, se é que os tem. O único que agora consigo encontrar é o facto de não saber se escreveste um texto melancólico e nostálgico, ou um texto irónico e direccionado a alguém em especial. Não o sei... mas é aí que tudo se torna mais fantástico: quando posso dar por mim a interpretar um magnífico texto, como o teu, da forma que eu entender; da forma que o meu coração decide sentir ao dar-se conta da intensidade do que todas essas palavras transmitem. Nós, os leitores e principalmente os escritores, somos escravos das palavras porque elas sempre conseguirão controlar-nos, mudar-nos... enlouquecer-nos, quiçá.
Lindo texto, muitos muitos parabéns!
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