quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O Fim

Foi há quase um ano que me “arrastaram” para dentro de um lugar cibernético onde nós, eu e mais duas moças, podíamos expressar-nos escrevendo. Bah! Fizemos mais do que isso: ensinámos e aprendemos. Por vezes cometemos os memos erros duas vezes, por vezes nem sequer errámos.

Oh, belo do blog, se não fosses tu eu nunca teria escrito coisas tão belas como os textos Alfa & Ómega, por exemplo, nunca teria criado aquela ode à Escuridão, nunca teria sido capaz de dizer o quanto adoro as minhas amigas e amigos, nunca teria sequer sabido o que era viver durante alguns minutos um amor celestial, pelo menos enquanto o escrevia!

Vou ter muitas saudades de vir cá, semana após semana, deitar para fora desta cabeça doida algumas das histórias mais impossíveis que podem algum dia ser escritas, chorar muitas lágrimas de dor, inveja, desejo, ambição, esperança, amor, enfim, qualquer das emoções que o que escrevemos me faziam viver.

Mas foi há quase um ano que esta porta foi aberta e pude descobrir em mim alguém que consegue usar as palavras e torna-las em algo mais e, com ela, despertar emoções tão variadas nos outros. Que saudades…

Que saudades da época que vivi e que me marcou tanto e que está tão bem gravada neste espaço de sonhos. Todo e qualquer momento que me deu inspiração está aqui gravado, toda e qualquer paixão que tive aqui está igualmente, todas e quaisquer ruas que percorri aqui estão descritas, todos e quaisquer sonhos que tive aqui estão imortalizados. Metáforas…espero um dia, mais tarde, me recordar da origem de todas elas.

Uma nova fase vai começar, mas atiro-me a ela com as memórias do passado aplicando as lições que aprendi e, quiçá, levando comigo muitos sentimentos mistificados nas linhas desde sítio.

A saudade custa, todavia é com ela que sabemos quem realmente fomos, e somos.

Poderia dizer muito mais, poderia reescrever o blog inteiro e, mesmo assim, não conseguir expressar bem o quanto ele significou e me marcou, porém, e para terminar, digo que tenho uma grande fé no futuro e que, quando ela vacilar, aqui virei reviver o ano mais crucial da minha vida, até agora, e, assim, relembrar todas as pessoas que amei e todas as emoções que experimentei, enfim, tudo o que vivi.

Encerrando um baú preciosíssimo, engolindo a chave, saindo de casa e pondo, de novo, a minha alma das mãos do acaso, esperando que, tal como aqui vim parar, ele me leve aos braços dos meu futuro, lhe digo:

Adeus,
agora que cresci já não preciso de usar fraldas.

Fim de blogue


Senti-te. Reconheci o aroma da tua boca. Fechei os olhos e imaginei que me beijavas ternamente como sempre fazias, como um simples beijo de bom dia, boa tarde, boa noite, olá, adeus, até manhã. E eu apoiava a mão direita no teu peito para te alcançar com naturalidade.

“Quanto o vento lhes bate na cara recordam quem são e o seu passado.”

Podemos ser pessoas diferentes no momento presente mas não há nenhuma droga que nos faça esquecer o passado. Talvez porque sejamos feitos de experiencias. E sem passado não somos ninguém. As marcas deixadas pelas cicatrizes e rugas contam uma história, a nossa. Lamento mas na realidade não existem resets, poderá simplesmente existir o perdão e a mudança.

“O tempo estava a escassear... Olharam para trás e para se animarem... recordaram o momento em que se conheceram. Os corações destas estavam novamente esperançados.”

Servirás para sempre como um retorno à época do secundário, as dúvidas constantes, as paixões, as amizades e toda a influência da sociedade, arte, cultura, ciência e conhecimento. As emoções que nos trazes são variadíssimas, desde a risota ao choro, ensinaste-nos a procurar no fundo do baú quem somos. Através de uma lupa descobrimos perspectivas diferentes de opinião. Juntaste as nossas palavras e com correntes solidificamos uma irmandade.
Quero deixar-te assim num ponto da minha vida vitorioso, as guerras foram vencidas. Muitas mais virão, mas adquiri aqui uma maior preparação para todas as batalhas. Os caminhos modificam-se, mas os meus pés continuam os mesmos, pequenos e iguais como sempre, mas com mais milhas palmilhadas.

“Ainda não sabes quem sou, nem para onde vou, com que sonho, o que faço enquanto acordada e a razão por que te escrevo. Dialogo contigo através das teclas e imagino um mundo em meu redor, construo personagens de papel que voam de dia para dia. Uns dias escrevo-te como narrador participante, outros como espectador. Tenho várias ideias, religiões, paixões e por vezes, posso ser contraditória.Pronuncio e falo contigo porque, neste momento da minha vida, preciso alargar os objectivos e encantos e ir de encontro com a verdade, ou seja, saber quem sou.Tentei esclarecer a minha personalidade e gostos, mas acho que compliquei mais que clarifiquei. Mas quem é que tem a certeza das coisas? Uns mais que outros, mas as dúvidas… estão lá sempre, mascaradas ou não.”

Olá, sou a Lua.E tu como te chamas, Criança Caracol?

Ora, nunca sei estas respostas... Mas cálculo que o segredo é deixar a velha história em paz, aceitarmos o passado, ou então virarmos uma nova página e por momentos esquecer o que vem no nosso historial médico.
Junte um pouco de farinha, pozinhos mágicos e inicie uma nova história.
Por agora, tenha fé em algo, ou em si. E acredite que tem o controlo da situação. E ora... Deite-se que provavelmente... O seu mal será sono.


«E se eu não puder ver?»«Então aí usa o coração e imagina.»

Mil e um textos…
A maior verdade:

São como as ondas tranquilas que produzem aquele som que me acalma e relaxa.Nós somos uma irmandade, ninguém fica para trás, ninguém chora sozinha, ninguém ri sozinha.

Guardarás-me para sempre a fralda do secundário.

domingo, 17 de agosto de 2008

Cláudia diary

“Os heróis também comem.”
Assim que abri a tampa do iogurte, sim ainda lancho como as crianças comendo iogurte de morango, encontrei os versos descritos devido a uma campanha para vender mais produtos. Mas não sei porquê, gosto de ler estas tontices e ficar a pensar na vida. Dizem que Deus nos envia mensagens durante todo o dia e que nunca as descodificamos. Sabes, já não acredito em Deus, não, as doenças mortais não surgem porque Ele nos quer dar outra visão de vida. As enfermidades manifestam-se por mutações, defeitos congénitos e maus comportamentos. Não existe nenhum Deus, apenas acreditamos num ser supremo pois precisamos dessa confiança para sobreviver a mais um dia caótico. Acredito no trabalho e personalidade das pessoas e no fim é só esperar e ter fé, confiança.
Mas não era sobre isto que esperava escrever, é sempre assim!
Gostei de por momentos, em que estou sentada em frente ao computador ou enquanto miro paisagens, imaginar que sou uma heroína da nossa história. Afinal, todos somos heróis quando chegamos ao final do dia. Mas escrever é a melhor maneira para nos conhecermos, para te conhecer como ninguém como quando falas no comboio, para saber o caminho a seguir, para perceber que os erros que cometemos no passado se transformam em boas atitudes no futuro. Ainda tenho pesadelos, como uma pequena criança que sonha com os monstros que estão debaixo da cama.
Ai! Tenho tantas saudades tuas, daquela tua firmeza e personalidade fascinante. Gosto de conversar contigo, tanto posso conversar sobre aspectos do mundo como também das banalidades da cor do verniz, maquilhagem e roupa. Serves-me como uma luva, uma capa, uma irmã. Conhecendo-me todas as arestas e vértices, pintas a manta e descodificas todos os olhares.
Sabes, parece que não é desta que nos vamos separar de todo. Pelo menos ainda podemos nos intervalos da vida entre um café e tablete de chocolate conversar sobre os novos desafios.
Hum… Ainda não fiz o ponto da situação com esta conversa toda!
Pois bem, de assuntos arrumados e com uns dias passados na praia, rumei para a aldeia dos meus pais, tios, primos, avós e famelga. Não faço planos para vir para cá, confesso. Mas por momentos, o corpo pede esta paz e conforto das tias e família. Os olhos ficam cheios do verde e a natureza entra em mim, sabe bem andar descalça. Por momentos, sou a Maria. Passeio entre os campos, acariciando os animais, sorrindo ao sol.
Por aqui, o vento sobra nas árvores, como a fruta que colho e leio sentada no balcão observando o pôr-do-sol, não tenho grandes projectos, vivo como uma camponesa.
Absorvo a meninice e recarrego baterias para uma vida mexida, em que ser decidida e despachada é uma atitude a seguir.
“Olha para ti… Ainda há princesas”.
E Esta? Hein? Mesmo para a ocasião. Estes iogurtes conquistaram-me. Mereciam fazer parte de uma colecção!
Da tua, Cláudia.

sábado, 9 de agosto de 2008

Sarah's Diary (1)

Sis, adorei o fim que desta à nossa história conjunta.
Devo dizer que foi uma experiência empolgante escreve-la contigo. Desde o incio que cada uma de nós se afeiçoou a uma das protagonistas e, enfim, não resistimos a acrescentar-lhes algo de nosso. A tua Sol com os teus caracois e sonhos de médica e a minha Sírio com os meus gostos e sonhos de arte. Depois vieram os seus apaixonados que tiveram, também, algo de nosso que, porém, não interessa nada agora, pois os tempos mudaram e, à nossa maneira, libertaámo-nos de passados que, de certa forma, nos consumiam o tempo e os miolos.
Em tempo de olhar para o futuro e ter esperança nele, dou por mim todas as noites a olhar as estrelas, enquanto apanho com o vento gelado na cara e nos cabelos, e a pensar em todas as pessoas que estão longe de mim. Os amigos estão quase todos longe e eu longe deles estou, basta morar onde moro e saber-se-à como !.
No entanto, tenho observado a Cassiopeia sérias vezes, bem como um holofote fortíssimo de uma discoteca ali para atrás das montanhas, e lembro-me de pequenos momentos passados que me deram a volta à cabeça e plantaram em mim um tipo de árvore, que não é desconhecida ao jardim da minha mente, mas que, desta vez, criou raízes profundas, penso eu. É que há muitos dias que a minha vista não vislumbra esta árvore, mas pensa em como estarão os ninhos dos passarinhos que os fizeram nos seus ramos, se as criam já nasceram, se os pais já os alimentaram, se os vento os levou, se...
Vá lá, tu percebeste a metáfora! No fim de contas és quem és... Não, não olhes para mim assim. Para mim, pois, consigo re-imaginar-te a olhar para a minha cara rosada e rires enquanto me expremo pelo assento do comboio abaixo!
Anseio pelo teu retorno e por mais uma tabelete de chocolate com 86% de cacau!
E espero que tenhas ''ido aos cornos do touro'' muitas vezes e que, claro, tenhas saído de lá inteira!
Aqui,
A sempre tua Sis.
PS. - O verdadeiro nome da Sírio é Samanta.

sábado, 2 de agosto de 2008

Fim

Era uma vez… Um dia de Verão soalheiro. O calor sentia-se na pele nua e os olhos semicerravam-se na busca de uma paisagem para lá da viatura. A viatura de grande dimensão deslocava-se através de carris. Duas figuras, uma masculina e outra feminina, encontravam-se naquele lugar para dar continuidade a um passado. A vida é um ciclo e as emoções do passado antecedem e repetem-se por vezes no futuro. Ele, de cabelos pretos e olhos verdes, procurava com as suas mãos enegrecidas de tinta um objecto de emissor de música. O seu olhar contava uma história antiga, quase impossível, não fosse a morte quase levar o seu pai. Quase. A doença debilitou-o e a sua mobilidade e memória aos poucos se desvaneceram. A mãe do rapaz ensinou-o desde pequeno que as coisas mais simples são as melhores, mulher de coragem e arte, toma todos os dias conta do marido e juntos vivem o dia como se fosse o último. Partilham as suas actividades, enquanto ela pinta, ele sussurra-lhe as suas sinfonias cantantes. Quanto a tarde chega, ele pega na mão dela e juntos passeiam pelo cais, em memória dos velhos tempos. O vento e a maresia recordam-lhe todas as memórias de uma vida agarrada ao segundo. E para sempre aquelas duas almas vaguearão. Ele pode até ser grisalho e ela conter rugas, mas amar-se-ão de mãos dadas, unidos para sempre.
A rapariga no comboio, também foi fruto de um amor progressivo. A sua mãe deixou-se apaixonar por um rapaz de matemáticas que continha segredos, um deles era o seu amor aos animais. Assim, viverão numa quinta, ela médica, ele veterinário. Juntos correm por um campo de trigo, ela de cabelos compridos aloirados pelo sol e ele vestindo camisa de fazenda no corpo. A vida dá algumas voltas e os amores do passado transformam-se em amizades.
A vida dá-nos uma segunda oportunidade seja ela a vida ou uma oportunidade de recomeçar. Por vezes é difícil encontrar uma nova via que corra sobre os carris. Por vezes, o coração bate devagarinho e a morte surge, mas um grande amor pode afugentar as maldades. Uma nova vida traz a esperança. Nem sempre o final é dramático. Porque não existe fim. A confiança e a aventura numa nova pessoa podem ser fundamentais para um novo começo.
Não interessam os nomes, pois muitos deles não representam quem somos.
As pessoas é que fazem os nomes, recordo.
As pessoas já o leitor conhece, basta juntar as peças e formar um puzzle e imaginar novos acontecimentos.
Os dois jovens conheciam-se há muito, desde pequenos. E juntos seguiam para um novo ciclo, amedrontados e confiantes.
Quanto o vento lhes bate na cara recordam quem são e o seu passado.
Tudo num simples comboio, entre paragens e destinos se conta uma história sem final.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Solitária eternidade

Sentindo-se nervosa e confusa, Sírio foi ter com Santiago àquele lugar mágico no qual, outrora, tinham sido abençoados pela chuva. Ela estava tão lindo e parecia que nada no mundo podia abalar os alicerces daquele ser. Porém, ambos sentiam que o fim estava próximo.
Santiago...

Querida.
Há algo que descobri e que te quero contar. Além disso, espero que entendas e concordes com a minha decisão a respeito desse assunto...

Tudo bem, diz-me.
Sem rodeios, por favor, entende, eu já gastei horas e horas de sono a pensar nisto e não aguento mais. Santigao, vamos ter um filho!


Ficaram ambos em silêncio durante um longo momento que pareceu eterno. Ela pensava que se tivesse dito de uma forma mais soave talvez ele não ficásse tão surpreso e ele não queria acreditar no que ouvira, mas mantinha-se em silêncio. Ambas as mentes fechadas e indecifráveis.
Sírio...
Meu amor, é verdade. Eu não sei o que pensas, não consigo perceber o teu olhar, mas eu decidi que quero ter este filho, Santiago. Quero, além de tudo, poder ter uma parte de ti comigo para, assim, fazer com que o nosso amor se eternalize...ainda mais.

A sua mente trabalhava furiozamente, pobre James. Todavia, era uma imensa alegria que o preenchia quando a abraçou e lhe disse que estava muito contente por terem tido aquela noite.

Tudo acontece por uma razão...não creio nisso. Mas que as coisas acontecem e a cadeia de acontecimentos que daí provém traz sempre algo alucinante e novo é verdade. Neste caso foi fabuloso, Sírio. Estou tão contente que agora só queria poder aguentar-me...

Uma lágrima correu na face dela. Cuidar de uma filho sozinha enquanto lutava por se formar não será fácil. A dor, imensa agora, de perde-lo quando poderiam ser ainda mais felizes. No entanto, não passava de uma porta, uma nova porta, que se abria para ambos: a Eternidade.

E, então, juntos caminharam uma última vez à beira rio recordando um amor mítico que, tanto em vida como em morte, existirá.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Na minha cabeçeira moras tu, livro.

" O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu - íman da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram. Tu. Agora puro vapor do universo. Serves-me de Deus - quem diria? Serves-me no que não sei ser, e é a verdade. (...) Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam. A tua morte alivia-me do medo de morrer. Contigo fora do jogo, diminui o interesse da parada. E se tu morreste, também eu serei capaz de morrer, sem que as ondas nem o céu nem silêncio se transtornem. Cair em ti, cada vez mais longe da mísera ficção de mim."
Fazes-me falta, Inês Pedrosa
No cafezinho do costume Sol e Sírio trocavam detalhes íntimos, confissões e sorrisos.
Vá Sol, agora é a tua vez... O que aconteceu naquela noite?
Pois... Já te tinha contado até ele chegar.
Mas não o final, deixa-te de segredos... Desembucha!
Chegados ao jipe, o rapaz sentou Sol no banco da frente e apertou-lhe o cinto, esta estava inerte e aluada. Depois a correr entrou para o veículo...
Sol...
Podes deixar-me em casa?
Não, não te vou deixar em casa neste estado. Vais lá para casa, tomas um banho, empresto-te as roupas da minha irmã e comes qualquer coisa que te aqueça o estômago.
E assim foi...
Depois de aconchegada com as novas roupas...
Francisco, Mc Math, levou Sol ao café debaixo para tomarem o pequeno-almoço.
Obrigada por tudo o que estás a fazer por mim... Eu...
Agora não interessa o passado... Mas ficas-me a dever um almoço, um lanche e um jantar.
Mas são 3 encontros! E riu-se. Aonde é que eu já vi isto?
Pois... é uma cena de filme!
Apanhado!
É tão bom ver-te sorrir.
Winning a battle, losing the war.
Eu vou visitar o Santiago e vejo-te lá algumas vezes.
Pois... Nem sei o que dizer... Temos de aproveitar o tempo que estamos cá para sermos felizes, quer sejamos pobres ou ricos, independentemente da cor da pele... E é isso que aqueles dois fazem todos os dias.
Tens toda a razão... Mas foi um choque. O que vale é que temos uma quase doutora entre as amizades.
É nestas alturas em que me sinto impotente, que a medicina se torna a minha inimiga.
Vamos marcar o nosso almoço?
Claro.
Oh, então sempre vais almoçar com ele? Pode ser que desta vez sem filmes nem interrupções nem orgulhos as coisas resultem bem, amiga!
Me desculpem todos os apologistas do amor. Mas o amor me recorda aquela matéria de biologia em que descobrimos que os multicelulares foram originados por colónias de células. O amor faz com que sejamos colónias de duas células e isto permite que cresçamos e nos individualizemos. É positivo sim. O amor é cooperação e junção de duas partes que funcionam bem. Deixemo-nos de filmes e romantismos. Somos seres vivos à procura de uma célula para formar colónia, e filhos, assim sucessivamente numa rede a que designamos família.
O amor é fantástico e faz-nos felizes mas é só isso, ponto!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Até ao fim dos tempos!

Não, não te vou contar como foi.


Sol observava as mudanças de expressão que Sírio ia adoptando enquanto rodeava a conversa. Obviamente que não queria pormenores, pois sabia muito bem ''como se fazem os bebés'', porém, era algo que gostava de conhecer melhor antes de se entregar, quem sabe a quem, um dia.


Bem, foi suave, bonito. Olha não sei explicar!


Sorriram as duas, enquanto que uma nuvem levava uma sombra obliqua ao rosto de Sol, não lhe tirando, contudo, qualquer parte do brilho natural.


Vá, foi metafísico... Ai, que parvinha que eu sou! Olha, já sei! Imagina uma almofada fofinha, depois imagina que comes algodão doce, em seguida visualiza uma avalanche, logo a seguir uma erupção vulcânica e... Raios!


Raios também? Poças, Sírio, pensei que fosse tudo mais...calmo e suave como tinhas dito!


Parva, claro que não houve trovoada nenhuma.


Acalmando-se ambas, fizeram retornar o silêncio e, agora, deixavam que as timidas gotas de chuva, que teimavam em não cair, se acumulassem nos cabelos loiros e negros das duas estrelas quais poléns na primeira tarde de Primavera.


Vou guarda-lo para sempre, amiga. Sei, sentimos que está perto, Sol. É inevitável e ele relembra-mo constatemente. Estou mais assustada que ele. Sol, ele vai abraçar a noite... E eu? Eu não vou conseguir, enfim, dar a minha Alma a mais ninguém, pois dele já ela é e com ele irá para além do intocável...



Sírio...



É a verdade, amiga.



Sírio, quem sabe!? Tu vais ficar cá, poças! A tua Alma vai ficar cá, tu tens que continuar a ser tu, não podes deixar que isto te derrote. Ele vai, mas se não o esqueceres ele viverá! Assim também quem és com ele viverá!



Sírio olhava a amiga com admiração e espanto. Sol nunca falara de tal forma, tão profunda e reflectidamente, qual Sábio antigo. Mas o que dizia era verdade, contudo Sírio não tinha certezas quanto ao futuro.



Acho que tens razão. Mas creio que entendes que vai ser muito dificil acordar todos os dias e enfrentar a vida sabendo que nunca mais vou ver e abraçar aquela silhueta e falar com aquele homem...



Podes sempre falar com ele através da Alma, Sírio. Foste tu que me ensinaste.



E, rivalizando com o de James, aquele sorriso, depois de palavras tão belas de amiga, fizeram Sírio prometer para si mesma que a sua Estrela irá acompanhar o brilho do Sol até que a época dos buracos negros chegue, até ao fim dos tempos, enfim.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

I am scary and damage

O termo de uma amizade, de um amor, de uma capacidade ou de uma fase da vida pode ser doloroso. Mas por outro lado, quando algo termina outro começa. E o que nos falta saber é se esta nova novidade será boa ou má. Por vezes, quando esta é má só queremos que volte a terminar. A vida é um ciclo de ciclos.
E cá estou, Sol, sentada num banco ressequido castanho com um livro de capa dura verde, como sempre gostei e neguei, pronta a escrever mais um capítulo. Não sei como aquele pequeno jeito com as palavras me escapou. Desisti dele, se bem me lembro e agora que tento dar-lhe continuidade, as palavras voam e correm entre as brechas, arestas e ruas. Cá estou eu mais uma vez, de lápis de cor verde na mão, como gosto, estagnada na primeira página vazia, branca e frígida. Há dias em que me sinto como ela e peço a Deus que alguém com engelho me pinte um retrato, uma paisagem ou uma palavra bonita, dessas que voaram.
Peço desculpa por não ser a maior personagem de BD, nem a heroína de romances. Nasci pequenina e sempre pequenina fiquei apesar de, sempre querer dar passos maiores que as minhas pernas permitem. Não sou nenhuma princesa da Disney, apenas princesa do ar. Não arrisco ao desbarato nem acredito muitas vezes em mim. Acompanho-me de uma lista de objectivos, que tento cumprir rigorosamente. Não faço tudo bem à primeira. Não sou a melhor personagem... Mas por momentos gosto de ser assim, diferente, assustadora e em perigo de ruir.


O dia estava quente e claro e as nossas duas personagens principais estavam no cafézinho da esquina de sempre a conversar. Na mesa estavam dois cafés e palavras de carinho, afecto e incentivo.

Juntas combinaram sair para desanuviar, uma simples saída pois Sírio não podia perder tempo para estar com Santiago.

Sol tivera notícias de José, este tinha encontrado um outro amor... Palmira, que como se pode ver pelo nome é uma rapariga de aldeia.

...

As palavras voaram e por agora, uso destas sem sabor, na procura pelo tempero da vida.

(Continuação...)

Soundtrack: Kiss Me - Sixpence None the Richer

A noite estava pintada de cinza e negro e no alto visualizavam-se duas estrelas brilhantes cada uma à sua maneira, uma um pouco mais apimentada e outra mais doce, mas ambas com imenso sal, metaforicamente referindo-me a Sírio e Sol cheias de esperança e de braços dados.

Os corpos fluiam numa rebeldia de cabelos claros e escuros, curtos e compridos, lisos e encarolados. As palavras de loucura saiam embebecidas de saudade e os problemas esses tomavam os contornos de todas as caras e numa turtulia, as cuscovilhices entravam e saiam de rompante como se de uma tourada se tratasse.

Flash-backs e visões iludiam os olhares mais reflectidos e todas as paixões, conversas de café, sessões de qualquer tipo inundavam um continente instável de sentimentos.

Sol avistou do seu posto um rosto familiar contornado de beijos inesqueciveis e de pedaços felizes de uma vida de recortes e costuras. Aproximou-se a medo e pela última vez olhou-o como se fosse uma última vez, pelo menos seria esse o desejo. Contrariamente do que se pensava, estes aglomerados de gente aproximaram-se e num abraço terno trocaram juras de amizade...

Foi contigo que aprendi a jogar aquele jogo em que tentamos chegar ao número vinte e quatro através dos animais...

Foste tu que cuidaste do Becas e de mim quando um rasgão no meu joelho fazia encarniçar as pedras da calçada e com um beijinho dizias que amanhã já estaria bom...

Foste tu quem me ensinou a ver as estrelas e me seguraste pelo braço, beijando uma bochecha e me disseste que gostavas de mim como de todas plantas. Tiveste o engenho de ser o primeiro, tiveste o jeito de me fazer corar, amanheceste na minha mente e nos meus lábios...

O tempo passou e já não somos mais aquelas crianças... Mas trazer-te-ei sempre debaixo da minha asa quando o frio e o nervoso se apoderarem de uma menina-mulher decidida.

Vai, a felicidade chama por ti. A aldeia pertence-te e serás muito feliz com a Palmira, tu mereces.

Vai correr tudo bem, eu sei que tu consegues...

Desculpa-me aquele abandono... Nunca gostei tanto de ninguém como de ti!

E saindo pelo caminho, sempre a olhar para Sol, Zé cantava:

Nobody knows it but you've got a secret smile

And you use it only for me

Nobody knows it but you've got a secret smile

And you use it only for me

O ciclo fechava-se e seguindo com os sapatos na mão, deixando pegadas de solidão, ia Sol. Sentara-se na porta de uma casa e olhando o céu perguntou-se:

E agora? O que é suposto fazer? Ó tu dono de todos os destinos, não sabes pois não? Logo vi!

A lágrima corria-lhe a face...

As nuvens carregadas de segredos e amores desabaram e de um momento para o outro, uma chuva torrencial desarmou... Um jipe na beira da rua fazendo sinal de luzes se aproximava. Um corpo molhado, musculado de camisa e umas calças de fazenda seguiam as pistas deixadas.

O que estás aqui a fazes encharcada e descalça? Anda comigo...

Não! Eu quero ficar aqui.

Pronto...

E agarrando-lhe o braço com força lhe beijava a bochecha, sussurando-lhe ao ouvido...

Vamos embora, estás encharcada e ainda ficas doente!

Pegando nela ao colo, como se tratasse de uma criança de seis anos, e acariciando-lhe o cabelo, lhe beijava a testa...

Amanhã já vais estar boa!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Eterna Omnipresença

Rosas negras e murchas adornam a campa do mais amado à face da Terra. Amado divinalmente por uma Estrela, a mais brilhante do céu, que, apesar de mudar de posição na abóbada celeste, nunca deixa de brilhar para o criador da sua luz, o seu Deus. Um Deus humano desconhecido de qualquer religião, um Deus mais que omnipotente, cujo único seguidor possui a força do Universo e dela faz uso amando-o incondicionalmente.

Esta poderia ser a história daquela velhinha, já de bengala a tremer, que ali caminha ao fundo e que, fielmente, continua a visitar a campa do marido que faleceu há muitas décadas. Marido este que amou, ama e amará eternamente, em vida e em morte, em tudo e em nada, transcendentemente. Morreu ele, ficou ela viva para sofrer a dor de nunca mas nunca mais o poder abraçar para além das memórias que ainda mantém.

Pétalas e pétalas tira ela de cima da lápide e, terminada esta tarefa, senta-se, esforçadamente, ao pé dele e conversam durante a tarde inteira até quase ser hora de o cemitério encerrar. Ela conta-lhe quantas saudades tem, fala-lhe do perpétuo desejo que dele tem, pergunta-lhe o que ele sente, responde-lhe que não sabe quando irão, finalmente, poder estar juntos para sempre. Porém, no meio de tanto afecto, existe uma lágrima de revolta que ela chora sem qualquer vergonha. Porque é que nunca me contaste? Mas o que poderíamos nós ter feito? Tivéssemos nós feito o que quer que tivesse sido teria acontecido tudo igual?...

Cansada e não conseguindo, agora, ver claramente a face do muito amado na fotografia da lápide, levanta-se, novamente a custo, e despede-se dele. Vamos encontrar-nos daqui a pouco, meu amor, pois em sonhos te guardo, sabes disso. Em sonhos recordo o teu abraço, sinto o teu beijo, voltamos a fazer amor, oiço a tua voz e, juntos, regredimos no tempo e voltamos a ter 22 e 23 anos, voltamos a ser jovens inexperientes a descobrir os mistérios do Universo. Até logo.

Contudo, ao chegar a casa, surge-lhe, de repente, à frente uma cortina tingida a vermelho, cinzento e uma cor estranha e impossível de definir, que tanto alterna para tons esverdeados como, sob a perspectiva de outro ângulo, se torna azulada. Com o susto, tomba para o lado e, não tendo uma parede para se apoiar, cai, mas não embate no chão, antes mergulha nas águas geladas de um rio. Não consegue respirar, está assustada. No entanto, quando consegue, sem saber como, emergir, os seus cabelos escuros começam a apertar-lhe o corpo. Estes estendem-se até distâncias infinitas, impossivelmente imensos e cobrindo tudo à sua volta. Porém, como que instantaneamente, uma mecha dos cabelos titânicos abre-se e ela vislumbra dois jovens amantes que, depois de se beijarem à chuva, fogem para longe daquele lugar que nunca mais os esquecerá. Sabe bem quem eles são, pois prometera ao seu amado que se encontrariam novamente em sonhos, porém, ela apenas assiste, quem foge para longe com o seu amado é ela e não ela.

Segundos mais tarde, como que num turbilhão, regressa à entrada de sua casa e, quando está quase a alcançar a porta, volta a cair, mas, desta vez, sente a dureza do solo. Sem se conseguir levantar, tenta virar-se para gritar por ajuda. No entanto, mal abre a boca, um vulto masculino aparece do nada e cobre-a com um tecido rugoso que lhe fazia comichão. A sensação de calor que rapidamente a contagiou era insuportável. O cobertor apertava-a, deixava-a desesperada. O vulto, que agora ela reconhecia perfeitamente, aproximou-se dela e, passando-lhe a mão suave pela face e desenhando-lhe o traço das bochechas, disse-lhe baixinho: Até logo…

Enquanto o vulto se apagava, o tecido elevava-se na sua frente e apresentava-se diante de si como uma pintura surrealista plena de significado por interpretar, cujo nome do autor estava esborratado no canto inferior direito, moldado numa figura indescritível, escorrida numa cor indefinível. Respirava o terror e o pânico que emanava daquela obra de arte.

JAMES!

Sírio acordou sobressaltada e, ao olhar para a janela em busca de uma paisagem real e um indício de sanidade, deparou-se com um quadro de estilo surreal cujo nome do autor era impossível de distinguir na amálgama de cores que reinavam no canto inferior direito do mesmo. Sentindo-se invadida pelo horror, levantou-se rapidamente, sentiu leves tonturas, e foi lavar a cara à casa de banho. Contudo, ao olhar-se ao espelho viu a face de uma bela octogenária, de cabelos infinitos e ainda negros como a noite, de olhar sonhador e apaixonado. Fechou os olhos e voltou a abri-los. Agora via-se a si, de olhar verde, cabelo escuro desgrenhado, mãos trémulas e terror na expressão.

Resolveu conservar a razão e pôs o pânico de lado, para nele pegar mais tarde, e preparou-se para ir ter com Santiago ao hospital. Era o dia de ele ter alta e estava ansiosa por poder guardar o seu tesouro, protegendo-o com todas as chaves do Universo.

Já no corredor do hospital, enquanto se encaminhava para o seu amado, lembrou-se da octogenária estranha. Bem sempre me chamaram estranha, não é? Se for assim quando for velha acho que vai ser bom… Mal sabia ela o que, sem querer, estava a desejar para si.
Sírio…

James, meu amor. Eu ainda não acredito nisto, eu nem sei o que dizer, eu só quero que saibas que, enfim, estou e estarei sempre aqui, juntos vamos superar tudo o que vier. Juntos, sempre!

Nunca duvidei, Sinfonia. Pensei em ti todo o tempo…

E eu. Nem sabes como me custou tentar dormir sem ti a meu lado…

Dormir?

Ah! – Ela sorria como se eles não passassem de um par de jovens normal que agora começa a descobrir o verdadeiro amor.

Sírio?

Sim?

Se eu por acaso…

Santiago, por favor…

Sírio, se eu por acaso morrer, eu… Não, Sírio, eu não tenho medo. Desde que tenha a tua luz como salvaguarda não tenho medo de fechar os olhos.

Nunca vais morrer para mim. És eu e eu sou tu, estarás, assim, vivo em mim. Somos tão líricos, não é? Mas ainda bem que encaramos tudo com naturalidade, meu querido.

Tens razão. Só assim somos felizes, Estrelita.

É.
Ah, temos que ir fazer o Caminho de Santiago, ouvi falar que se aprendem imensos ensinamentos úteis ao dia-a-dia e que o roteiro é muito interessante, seria deveras apaixonante…

Ai, podes ter a certeza, também já li sobre isso e, não só porque é do MEU caminho que se trata, mas porque seria enriquecedor em termos culturais! Mas…que raio?! O meu caminho és tu!

Eu sei, mas esse caminho só há um fiel a faze-lo…Sabes, hoje tive um pesadelo, meio sonho, muito estranho, como que uma premonição. Tenho que te contar mais tarde, não resisto.

E eu não te resisto a ti, linda!

Estou ansiosa para que me demonstres isso, Santiago, O Santo…

O olhar de ambos era caçador e divertido, alimentando-se da boa disposição um do outro, quase que revelando uma vontade de se terem ali mesmo. Mas era hora de regressar à vida quotidiana e esperar que o Sol lhes continuasse a iluminar o caminho. Esperar que Sol iluminasse o Caminho de Santiago.

Amo-te? – Perguntou, trocista, James.

Amas. – Disse Sírio por entre um beijo cheio de saudade.


E, envolvendo-a num abraço forte, como se fosse ela quem precisasse de protecção, o Deus sorri à sua Estrela com a força do Universo e esta envolve-o com a omnipotência da sua devoção.

quarta-feira, 14 de maio de 2008


Como todas as histórias, a vida tem de prosseguir e Sol voltara a casa para retomar o estudo, lavar a roupa suja, passar a ferro depois desta anterior ter secado, tratar da sua higiene diária e arrumar as roupas por cor e por fim, lavar todas as canecas de café que sujara enquanto realizava maratonas de estudo na sua varanda.


Depois de semi-organizada uma vida, porque uma vida nunca tem organização, decidiu descer ao café da esquina e comprar pão quente e outros mantimentos. Quando toda a sua existência parecia estar coordenada e em ordem...


-Podemos conversar? - disse José.


-Claro. - sorriu-lhe Sol.


Sentaram-se numa mesinha do singelo café e tomando uma água e um café...


-Decidi levar-te comigo neste fim-de-semana grande à aldeia da tua...


-Avó.


-Isso...


-Oh, José. Eu quero ficar por cá, o namorado da Sírio está muito doente. Ainda agora consegui voltar a organizar o meu tempo e casa para o estudo.


- Não sabia que o Santiago estava doente... Podias me ter dito alguma coisa e eu estava lá. Afinal, há dias que não me contactas, desde a pintura da tua casa... Não percebo como te distancias! Não percebo como não organizas a tua vida para mim... Como fazes com a disciplina de Anatomia.


- Eu não estou pronta para me relacionar. Eu sou assim: assustadora e magoada. Eu não faço amigos facilmente... Eu não me dou... Eu não estou pronta. O meu ambiente familiar não foi o melhor. A minha avó morreu. O rapaz de quem eu sempre gostei...



Porque há pessoas que não gostam de saltos grandes, porque as pernas delas não o permitem.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Full Circle

Acompanhantes de Santiago...?
Eu!
Por favor, siga-me.

Os corredores, brancos, como que uma paz aparente, inundavam o olhar de Sírio enquanto esta seguia o médico pelo meio dos doentes acamados nos corredores.

Entre, por favor.

O gabinete era acolhedor, mas emanava dele um cheiro a álcool étílico e éter que lhe dava uma sensação de pânico.

Bom, o seu...
Companheiro.
Exacto, não sei se o paciente já lhe tinha contado alguma vez mas...
Mas o quê?
Acalme-se.
Não consigo!
Eu entendo. Bem, já não é a primeira vez que o Santiago aparece de urgência na minha Ala.
O quê? Mas então que...
Ele tem um problema grave com o qual tem que viver, pois não há forma de cura sem envolver um risco.

E tudo o que o médico disse a partir dali Sírio não escutou mais. Ela apenas pensava naquele passeio à beira-rio com James. Como pode não ter notado algo nele de errado? Clafro está que ele não lhe iria destruir a felicidade com o seu problema, qualquer que ele fosse. No entanto, tinha o direito de saber o que o amor da sua Alma tinha de tão...incurável.

Não sei o seu nome...
Chame-me Sírio, por favor.
Bem, com certeza.

O coração parou.

Sírio, o Santiago tem um aneurisma grave na artéria Aorta.

Os olhos fixaram-se nos azuis do médico, que lhe lembravam vagamente dos de Santiago.

Doutor...

O perito olhou-a profundamente nos olhos vagos e visualizou mentalmente o rumo da história da jovem mulher na sua frente.

Se o coração de James por mim não deve pulsar, que seja este o meu fim!

Sol esperava Sírio no lado de fora, mas tinha ouvido o seu grito bestial e esperava-a para a poder embalar no seu abraço caloroso.
Quando Sírio chocou com os braços da amiga, neles derramou lágrimas reprimidas de muitos anos, tristezas e alegrias breves, um circulo que quase estava completo.

Sol...
Minha amiga, não sei o que sentir, nem dizer, nem...
I've come full circle!

E Sírio deixou-se embalar pelo desespero e entregou-se à loucura.

how to save a life

"Abriu o encadernado e cheiroso livro... Contou uma história... Aprendeu que os Reis, rainhas e o povo não nascem já homens, estes também erram. Mas todos os erros trazem na sua cauda aprendizagens. Errar é viver... Errei para mais tarde, perceber que o teu amor nunca foi amor... E não me venham com tretas! Não se ama alguém desta maneira! E um dia... tu vais sentir aquilo que te falo, todas estas palavras que um dia escrevi imaginando-te. Um dia vais amar, não hoje, talvez amanhã. E assim, nunca mais te amarei, nunca mais te desejarei, nunca mais terei fantasias... Adeus, e não te desejo boa sorte!"


Inspirado em Grey's Anatomy


Sol deixara que o vazio a invadisse; sentia-se longe de todas as pessoas; deixara de ter vontade de escrever e até de voltar a sorrir. Talvez um dia volte a escrever contos infantis.


Recebeu a mensagem e dirigiu-se para o hospital.


Naquele momento sabia que teria de deixar toda a tristeza no lado da porta daquele edificio. Entrou e o ar cheio de tensão, de fé e de esperança beijou todo aquele corpo inerte.


Ao longe avistou Sírio, tinha saudades é certo mas nada lhe despertara os sentidos, aproximou-se e avistou uns tristes olhos verdes. Abraçaram-se como se sentissem que o fim estava próximo, sentiram o cheiro da separação e o arrepio de que mais um ciclo teria chegado ao fim.


Juntas aguardaram, de mãos dadas, por uma boa nova, por um novo ciclo, por uma chama.


O tempo estava a escassear... Olharam para trás e para se animarem... recordaram o momento em que se conheceram. Os corações destas estavam novamente esperançados.


A esperança e a fé está em cada um de nós, basta saber procurar lá no fundo. E toda aquela confiança nas nossas capacidades emerge. E por momentos, o mundo parece sorrir-nos. Acreditamos nos sentimentos e na verdade. Nem sempre é assim...


Um final, aproxima-se....
Todas as palavras formariam um mar,onde boiaria todo o amor;e retirando a tampa,todo esse fujiria pelo cano,até ao mar, de novo.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Indeterminação

Tal como um gráfico de uma função de contra-domínio limitado, a felicidade não tende para o infinito. Aliás, está é como que uma assímptota que, por mais que se tente chegar ao ponto nunca o atinge. Um valor muito elevado, estremamente grande que, mesmo assim, não é suficientemente grande para alcançar o infinito, que ele próprio não alcança...
Era nisto que Sírio pensava enquanto preparava as tintas e as telas para mais uma obra de pintura. Organizava na sua mesa de trabalho as cores, da mais escura para a mais clara, e os pincéis, do mais pequeno para o maior. À sua frente encontrava-se um cavalete com uma tela média com a esquadria já pronta.
Nesse dia, tinha vontade de se dedicar ao abstracto, coisa que há muito tempo não pintava, pois, finalmente, sentia que a sua vida se tornara concreta. Porém, foi no estilo surrealista que se debruçou nesse dia.
À parte as formas meio perceptiveis, o resto do quadro era um enigma. A escolha de cores foi mais cuidada do que poderia parecer à primeira vista, e os contronos muito bem pensados. Havia um significado naquilo tudo, mas Sírio áinda não o conhecia. Toda aquela obra tinha sido um fruto de uma racionalização ou de uma premonição, pensava ela. Todavia, qual das duas? E qual o seu significado para si?
Afastou-se para visualizar a sua Arte em plenitude. Estava magnífico, embora sem sentido aparente. Daria uma bela peça de arte decorativa para uma sala grande, ou para o escritório de um empresário amante da pintura surrealista, apesar de tal corrente artística já ter tido o seu apogeu há decadas.
Nisto, Sírio olha pela janela e vê o belo sorriso de James entre as cortinas. Apressa-se a sair para a rua e abraça-o, como se fosse o último abraço na vida.
Cheiras bem, meu James. Perfume novo? Não me lembro dele... - disse Sírio.
Não te consigo enganar. É, comprei-o ontem, achei que ias gostar dele. - disse Santiago.
Podes crer que adoro, mas gosto ainda mais de ti!
Entretanto entraram em casa e foram admitar as nuvens, de uma tarde de Verão no seu fim, sentados na relva do pequeno jardim das traseiras e entrelaçados um no outro.
Passaram horas assim, como se estas tivessem sido eternas. A felicidade tendia para o infinito, como nas assimptotas de Sírio, à medida que o tempo passava. Mas este tempo era limitado e a felicidade não era ilimitada.
Acho que tenho que ir andando, Sinfonia, ainda preciso de acabar uns trabalho para amanhã. Adorava levar-te a dar um volta hoje à noite mas...
Oh, não faz mal, adorado. Amanhã podemos fazer tudo isso...e mais alguma coisa!
Anseio por isso...
Já estava quase a fechar a porta e ir a correr para ver o seu amado ir embora, quando Sírio se apercebe que ele já não estava à vista. Santiago desfalecera à entrada da casa de Sírio e esta, como que percebendo a sua tela, correu em socorro dele e trouxe-o para dentro.
Ela tentava acorda-lo, mas antes tinha-o deitado na sua cama e trazido água com açúcar. Contudo, Santiago teimava em permanecer incosciente e Sírio estava cada vez mais confusa e nervosa.
Já há 5 minutos que Santiago não reagia e, então, ela resolveu chamar uma ambulância. Esta chegou passados 10 minutos e Santiago foi levado para o hóspital mais próximo.
No caminho, Sírio ponderava acerca da sua pintura e das formas e cores que começavam a ganhar sentido. Porém, havia algo que ela não queria perceber e esperava estar a interpretar mal.
Em casa, a tela repousava e secava ao sabor da suave corrente de ar. No canto inferior direito, onde ela tinha esboçado o seu nome, uma breve mancha cinzenta escura, misturada com outros tons estranhos, escorria, prestes a apagar o seu nome do quadro.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Um Verão


"Há dias em que o amor me surge como a religião. Não sabemos se existe mas sentimo-la. Não queremos acreditar mas precisamos dela. Nesses dias em que nego que te amo, nessas alturas em que te quero, nesses sonhos em que te abraço, nesses momentos em que o mundo pára e eu consigo que te apaixones por mim... Eu amo-te como sempre te amei... E já inúmeras tempestades e rios passaram por mim e a tua imagem parece inalterável. Gosto de ti e nada mudará... Mas digo-te ao ouvido que não te preocupes... Um dia alguém preencherá uma pequena parte do que tu preencheste e assim, mesmo amando-te... Eu poderei tentar reviver todas as alegrias... Um beijo, meu amor!"

Quem era José para ela, afinal?

Desde os seis anos que Sol passava as férias grandes na aldeia da avó Isabel, ou avó Bel como lhe chamava a neta. Eram três meses esplêndidos de aventura, de carinho, compreensão e cumplicidade. A avó contava as mais belas histórias de amor a Sol. E amorosamente esta foi crescendo na companhia de uma terna avó e dois fiéis companheiros: José, ou Zé ou só “É” e o Becas, cão velhinho que gostava de festas. Sol era a menina da casa… mimada e sorridente.

Com os seus companheiros passeava pelos mais vastos campos de trigo doirado. Quando fazia muito calor mergulhava na ribeira… À tarde ia buscar as vacas com o “É” e o “Becas”. No final do dia aparecia com as meias rasgadas e o vestido sujo de terra, e a sua avó não se importava, porque o sorriso de uma criança é uma cura para qualquer preocupação. Os dias mais felizes daquelas três almas, ou melhor quatro, eram precisamente os que pertenciam aos meses de Junho, Julho e Agosto.

Todas as noites, quando o Becas já dormia e a avó fazia croché, Sol e Zé brincavam no terraço, bebendo um copo de leite morno, contando as estrelas, pedindo desejos, fingindo que o mundo era uma bola de sabão. E numa noite o pequeno de sete anos disse:
- “Têtê” promete que voltas todos os Verões. E que um dia casas comigo. Tu cuidarás de mim e eu construírei
a nossa casa…

Mas enquanto falava, a pequena já tinha adormecido deitada debaixo de uma manta enquanto observava as estrelas. E José muito meigamente beijou-lhe a testa e foi chamar a avó de Sol, para que esta a levasse para a cama.

Muitos mais Verões passaram e Sol e “É” cresciam saudavelmente. José montava pequenas casas em madeira e Sol examinava o “Becas”.
-Olha, “Becas” tens de tomar este xarope que te vou escrever. – E a pequena doutora rabiscou o nome do remédio numa folha de cartão, e é claro que só o fez depois de auscultar o cão com um auscultador feito de palhinhas.

Os anos passaram-se e num último Verão na casa da avó, os dois amigos foram mais uma vez contar as estrelas.
-Zé, não achas que já não temos idade para isto?
- Talvez. Olha, vi uma estrela cadente.
- Pede um desejo! Mas conta! Vá lá! José! – Dizia enquanto sacudia o amigo como se tivesse nove anos.
-Pedi para que nunca deixasses de passar cá os Verões…

E nesse instante em que a Lua iluminava os dois amigos crescidos… José muito ternamente olhava Sol, e esta aproximava a sua cara à do rapaz e com o fechar dos olhos, ambos tocaram com os seus lábios um no outro…

Nesse ano, avó Bel morreu e Sol nunca mais tinha visto José... Aquele encontrão na biblioteca… Passados anos, os dois tinham-se encontrado. Ninguém sabia o futuro daqueles.

Sol tinha medo do amor e José tinha prometido, há alguns anos, que a protegeria sempre contra todas as cobras, lagartos e monstros que morassem debaixo da cama.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Quem?

Soava a...nem sei bem, Sol! Mas só sei dizer que foi, credo, lindo, demais, divino!!!

Bem, as minhas paredes ficaram modos que estranhas, hihi! Acho que o José tem mais jeito para a natureza e...

P'rá horta!!

Parva! Eu dou-te a horta!

Dá, agricultora!!!!

E riam sem parar, enquanto a carruagem se movia ao ritmo do resto do comboio e os primeiros raios de sol da manhã entravam pela janela.



Ai, deixa-me respirar...

Huuu, pensei que só o teu James te deixava sem ar!

Podes crer que deixa sem ar, sem tudo!

O quê!?

Aii! Calma, expliquei-me mal, ahah!

Pois pois! 'Tás é mortinha para lhe saltar em cima, maluca!

Eu? Nah...Talvez...SIM! Ele é tão...

Tão?...

Lindo...

E a última palavra fora proferida com tal carinho e paixão que nenhuma das duas teve a coragem de quebrar o silêncio que se seguiu a ela.

Sol, eu amo-o.

Sol virou a sua face e ficou iluminada pelo sol. Sorriu e não disse mais nada, pois sabia que a única pessoa que quebra os silêncios de Sirio era ela própria.

Amiga, eu sinto que posso mover o mundo com ele a meu lado! Ele tranbsmite-me uma segurança inabalável! Nunca me senti assim e sempre fui muito segura na vida. Mas ele é tão...é indefinível, sinceramente. Só aquele olhar azul, aqueles cabelos loucos, os traços perfeitos, os braços fortes, o porta atlético, a cultura que ele tem!...E a arte que dele emana, que aura, que Alma. Ele é o homem mais belo que já vi, que já ouvi...

Ao ouvir aquelas palavras, Sol sentiu-se pequena e carente. Tão carente que, de repente, desejou que José aparecesse ali e a levasse a voar acima das nuvens.


Mal poço esperar para o ver de novo. Cada dia que passa é um milagre, sabes? Ele ama-me! O homem com quem sempre sonhei ama-me! Eu nunca namorei, Sol, acreditas? Tenho 22 anos, estou no primeiro ano de mestrado e nunca tive uma relação. Ok, já me apaixonei e já houveram apaixonados por mim, mas poucos, muito poucos até, e nunca nenhum deles era quem eu sempre quis. Até que...Santiago! Já não me imagino a viver o meu dia-a-dia sem ele, sem as melodias dele, sem a sua voz melódica, sem o seu perfume encantado, os seus braços fortes à volta da minha cintura protegendo-me dos males do mundo!

Sirio deu-se conta de que a amiga não a olhava com o seu habitual olhar doce e pacífico, mas antes dava a sua atenção às casas que se moviam lá fora. Decidiu remeter para o seu silêncio, apesar de interiormente gritar por um único nome. Ela sabia que Sol a ouvia, mas estava, ao mesmo tempo, distante.

Será que estou a pensar demasiado em mim, apenas? Mas estou tão feliz que nem consigo pensar nos outros. Pela primeira vez na vida sei o que é ser egoísta e pensar só na minha felicidade. Mas estou a ser injusta com ela. - pensou Sírio para si própria.

Reparando que a amiga dera conta da sua apatia, resolveu sorris-lhe. E encerrou a conversa por ali. Era altura de Sírio sair na sua paragem e ir abraçar os seus estudos e o seu amado que, com certeza, a esperava às portas da Universidade.

Até logo Sol...

Até logo Sírio...

Quem era José para ela, afinal?

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Coffee

Escolhas. Visto calças ou saia? Como carne ou peixe? Vou dormir ou estudo? Amo ou não? Corro ou sento-me? Coso ou abro? X ou y doença? Imunidade humoral ou celular? Verde ou amarelo? Leite ou café? X ou y? Plano inclinado ou direito? Uso o verbo ser ou ter? Canto em que tom? Beijo-o? Sorrio-lhe? Estou bem assim? Amas-me? Vens comigo? Todos os dias tomamos uma data de decisões, fúteis ou importantes, são escolhas. Usar a impulsividade ou a razão? Há dias em que paro, uso os meus sentidos, penso, penso e penso e ajo. Há outros em que a correria e o desgaste dá cabo de qualquer um e as palavras saem. E então? Erramos. Erramos mais uma vez. Erramos. Errei! E um erro é como um nó num tapete de Arraiolos. Um nó na garganta. Um número enganado. Um sinal mal colocado. Um mau ajuste na equação química. E voltamos a trás? Desistimos? Damos meia volta e saímos? Mais decisões. Eu posso desistir. Mas há um problema, eu adoro jogar! Não há regras de derivação, não há ajustes químicos. A vida é como a arte. Uma pincelada aqui e quando corre algo mau, surge a oportunidade de pensar, o que é que aquele risco pode sugerir? Volto a trás e corrijo? Faço disto um novo retrato? Escolhas. Experimenta uma e se essa não resultar, vai corre... Luta pela outra. Deixa a razão em casa. Embrulha o orgulho numa caixa e vai! Está na altura de te apaixonares. Está na altura de arriscar. Está na altura de mudar. E tu sabes isso...
Sol andava estoirada de tantos livros decorar, de tantos cafés bebidos, imensas horas não dormidas... O cartão com o número de telefone do rapaz 2 (friamente lhe chamava assim) continuava na mesinha de cabeceira. Sírio e James namoravam a cada segundo, minuto e hora. Para eles a vida era justamente o momento. Viviam como se não houvesse amanhã e não se cansavam. O amor era como eles o desenhavam, sem regras, sem nomes, sem palavras, mas sim, uma tela de cores, frias ou quentes, traços. Não existiam cálculos nem máquinas. Era puro artesanato. Amor feito por eles e para eles. A arte dos dois conjugava-se. E mais uma vez, juntos faziam inveja à rigorosa ciência, fria e calculista.
Do ouro lado da linha estava Sol. Levantou-se e puxou a cortina que tapava a varanda. De pijama e com o cabelo despenteado, deitou um olho ao jardim. Observou uma avó e uma neta...
De repente o sol brilhava com mais força, o vento assobiava e as nuvens dançavam ao som do sorriso de duas figuras. Aquilo chamava-se cumplicidade. Eu diria até felicidade. E o segredo disto? Hoje penso que isto resulte do amor. Aquilo que faz com que nos sintamos como uma montanha russa. Sol arrancou todas as cortinas, pegou num pano e limpou. Arrumou. Tomou um banho. Simples e pronta, pegou no telefone e marcou os dígitos.
Minutos depois... José entrou pela casa e juntos pintaram as paredes de branco e no final desenharam, escreveram... fizeram arte. Conversaram sobre todas as aventuras. Imaginaram férias na aldeia.
Sol sabia agora que estava na altura de deixar de pensar. E apaixonou-se... Só faltava agir...

terça-feira, 22 de abril de 2008

Ele e a Sua Música

Conheces Sol?
Sol?
Sim, a minha amiga Sol.
Ah, de vista. Um amigo meu é que me falou mais dela...
A sério?!
Sim, acho que eles estavam em vias de namorarem, não sei.
Hum...
Porquê?
Não sei, tenho uma impressão de que há muitas nuvens no céu hoje.
O quê!? Lá estás tu com as tuas metáforas loucas de novo!!

E ele atirou-se a ela com um beijo mordaz no pescoço. Ela sentiu o arrepio e levantou-se antes que, não conseguissem os dois resistir, chegassem atrasados à universidade.

Santiago?
Diz?
O que vai acontecer a partir de agora?
Não sei, nem quero adivinhar. Deixa fluir dia após dia. Desde que tenhas a minhaq confiança e eu a tua acho que seremos felizes!
Tens razão. Até porque eu não gosto de fazer promessas. Não que não as consiga cumprir mas...
Eu entendo, Sinfonia minha.

E sorriu, como só ele sabia.

Credo!
Que foi?
Esse teu sorriso maroto dá cabo de mim! Importaste de parar!?

E riram, sorriram, brincaram até que se tiveram que separar na universidade.

Até mais logo, James.
James, torna-se um hábito. Santiago...É sinónimo, mas enfim. A tua mania de inglesar as coisas...
Oh...desculpa Beleza!
Sotaque brasileiro agora!? Tás louca!
Ahaha, vá lá, dá-me o desconto, já te disse que me pões doente quando...
Sorrio? Assim? Tá giro?!
Aaahhhh!!

Ela agarrou-se a ele como uma lapa à rocha. Sentiu o perfume dele, magnético e cheio de charme. Ele passou a mão pela cintura dela, acariciou-lhe uma bochecha com a outra mão e depositou-lhe um suave beijinho na testa. E, nisto, cada um foi ter as suas aulas.

Namorada?!
Não.
Não. Então é o quê? Irmã é que não é, não tens meu!
Vês o violino? Vês o meu violino? Ela é a música que eu toco.
Uii! Há muito que não ouvia uma dessas, pah! Emo? Não acredito...
Deixa-me em paz, fogo. Ela acendeu em mim a chama da esperança, entendes? Trouxe luz à escuridão, à minha solidão! Ela fez-me ver que o mundo não é só negro, mas tem cores, muitas cores...
Ok, já vi que é sério mesmo. Tens que me contar como foi, Poeta!
Ahah, querias. Há coisas que tens que ser tu a viver! Até já!

Deixando o colega na mesa da frente da primeira fila, Santiago deslocou-se para a segunda fila. Reparou que o amigo ficara pensativo o resto da aula. Também ele ficara, mas por outros motivos.

Na, na na naaa, na... Não, isto aqui não...Na na , naaaa, na naaa...Perfeito! Hoje ouvirás a minha música, Sírio. Espero que gostes de violino. Senão sempre tenho o piano, a guitarra...

E a desintegração dos corpos radioactivos ficou como ruído de fundo o resto da aula.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Recordações


O dia seguinte acabara de nascer e Sol acordara com a sua luz a bater-lhe nos vidros da varanda. Um passarinho empoleirado na árvore, que crescia lado a lado à casa, cantava uma melodia tão harmoniosa, que desde que Sol se mudara de casa nunca mais usara despertador. O relógio marcava as oito horas da manhã e Sol arranjou-se, pegou numa pilha de livros e dirigiu-se para a esplanada mais perto para tomar o seu café e fotografar o acordar de um dia solarengo, pois a Primavera tinha finalmente chegado para ficar.

Sol caminhava pelas ruas com uma pilha de livros nos braços, vestindo um vestido de renda branco e calçando umas sandálias de couro sorria a todos os espaços da calçada. Os seus cabelos compridos e alisados na noite anterior brilhavam e dançavam na redonda cara de Sol. Acordara cheia de vitalidade e com vontade de escrever mais um conto para crianças. Mas as frequências na faculdade precisam de ser preparadas e uma das nossas heroínas carregada de livros dirige-se para a biblioteca mais próxima.

Á entrada da biblioteca estavam cerca de 25 pessoas em fila para registrarem livros e Sol fazia um esforço para cortar mato e conseguir sentar-se numa mesinha sossegada. Mas como toda a gente tem pressa e impaciência, Sol desequilibra-se e a sua pilha de livros chega a cheirar e beijar o chão da biblioteca... Até que uma mão masculina e de grande a ajuda empilha de novo os livros e quando Sol se levanta e olha para a pessoa em causa...

-Teresa? Maria? - questionou o rapaz. Na verdade quando Sol era mais nova tratavam-na por Maria.

-Sim sou eu... José? Zé?

-Sim. Recebeste...???

-Sim recebi. Como é que soubeste a minha morada?

-Depois de saires da aldeia... Eu escrevi-te durante um ano. E depois soube que a morada para onde escrevia não era real. E... procurei-te durante anos. Agora estou em Lisboa a estudar engenharia...

-Ah! Ainda queres construir a tua casa!

(Riram-se deliciosamente).

-A nossa casa...

-Bem tenho de ir estudar...

-Ah, eu tenho que sair agora para uma aula da faculdade. Tens aqui o meu contacto, se me quiseres ligar. Continuas a mesma menina usando ganchos em forma de corações, vestidos de renda, uma face corada e o que fizeste aos caracóis?- e segurando-lhe a face rosada, ternuramente a beija.

Sentada na sua solitária mesa, Sol tinha aberto o livro de anatomia e olhando em frente pensava na figura de José... Na altura em que ele lhe contava histórias sobre a aldeia e a levava a andar de trenó quando nevava.

Sorria e recordava agora mais velho o rapaz que a tinha ensinado a olhar o céu e a imaginar a forma das nuvens.

Aquela figura de altura média vestindo uma camisa de linho verde e aqueles olhos castanhos que tocavam nos seus cor de mel...

Como uma chama adormecida

Já me esqueci do meu nome.
Quem sou afinal?
Para além de uma incógnita por isolar e descobrir, tal como numa equação?
Equação esta cuja solução seria, não tenho dúvidas, um número irreal.
Raiz quadrada de -1...
Ajuda-me!
E assim Sírio passou os últimos momentos de consciência, antes de entrar no sono, pensando na paz de quando caminhou à beira rio, nessa tarde, vendo os restos de barcos, que um dia serviram grandes pescadores, flutuando à superfície da maré lenta e calma. Tal como eles, ela também se sentia leve e a ondular ao ritmo do mundo, a sua maré, e ao ritmo da respiração de James, a sua noite.
Tinha estado no café com ele, falando de inúmeros temas, cada um sorrindo mais que o outro, cada um encantando mais que o outro. Porém, a fobia de estar fechada num café tomou conta dela e teve que sair por breves momentos. James percebeu que algo não estava bem e, revelando-se, convidou-a para irem passear à beira rio e observarem a beleza das águas. O seu gelo interior, acumulado ao longo de vários anos, derretera-se completamente face àquele olhar intenso e àquele sorriso divinal que ele lhe ofereceu enquanto lhe tirava uma madeixa de cabelo afogueado da frente da cara.
Juntos percorreram uma distância considerável da marina mas, desta vez, em silêncio. Caladas as vozes, já cansadas, limitaram-se a escutar os pensamentos um do outro. Da mente dele emanavam composições melódicas, poesias e saltos na neve. Na alma dela surgia uma pintura, estranha e complexa, banhada com tons dourados, pretos e arroxeados, sublime.
Sabes, Sirio, adorava saber o teu verdadeiro nome. Já tentei saber por pessoas que te conheceram, mas nada. Todos eles me dizem coisas como Nuvem, Pétala, Lua, Cristal e fico cada vez mais curioso. Diz-me, quebra esta tormenta em mim, por favor. Eu confesso, não aguento chamar-te Sirio, não vejo me ti a estrela mais brilhante do céu...
Ela olhou-o, serenamente, tentando decifrar cada palavra que ele dissera. Era um poeta, sem dúvida, cada frase pura inspiração, cada fonema uma arte. No entanto, quando ele fizera a referência ao seu Nome, ela ficara apreensiva. Aquele era o nome mais bonito que lhe tiveram dado na vida, como podia ele não gostar? Será que ela pensara demais e ele, afinal, não nutria um sentimento mais transcendente por ela além de amizade, ao afirmar que ela não era a estrela mais brilhante? Estaria apenas a querer tornar físico um sonho?
De repente, começara a chover fortemente e os seus pensamentos esfumaram-se. Com um movimento rápido e perspicaz, ele cobriu-a com o seu braço e casaco e correram para uma espécie de telheiro com heras a subir pelas colunas que o suportavam. Rindo dos cabelos desgrenhados um do outro, sentaram-se à espera que a chuva terminasse. Como ele estava belo com o cabelo molhado e desalinhado emoldurando-lhe as faces perfeitas. Como o olhar dela ganhava nova vida com as gotas de chuva.
E ela sentiu-o. Tão discreto como o peso de uma pluma, o toque dos seus lábios lançou uma onda de calor intenso por todo o corpo dela. Como que enfraquecida pela força do beijo celeste, ela deixou-se envolver pelo abraço seguro e confiante dele. Era a primeira vez que se deixava descansar e confiava o seu suporte a outra pessoa que não ela própria. Naquele momento pôde jurar que era Vénus e ele Marte, um amor transcendente e digno de uma lenda.
Envolvendo a cintura dela e encostando-a firmemente a si, ele deixou que o seu desejo falasse mais alto e a sua paixão a envolvesse ternamente. Ela acariciou a curta barba de três dias que se estava a afirmar nos traços dele e, enquanto deixou que ele lhe visse a entrega no olhar, o sonho, o afecto, ela pegou na mão dele e correu. Correram pela chuva até à casa que ficava mais perto, a dele.
Ao chegarem à entrada, sentiram que não se poderiam separar mais, tanto física como espiritualmente. E ele, pensando nas chamas da sua lareira quente, convidou-a a entrar e ela foi, pois a ele e ao seu fogo ela pertencia.
Tempo depois, já ele repousava a sua cascata de cabelos cor de noite no colo dela, secos. Ela afagava-a e cantava uma melodia que lhe viera à cabeça enquanto a lenha ardia à sua frente. Tinham rido e contado histórias, debatido temas e feito jogos de inteligência. E, no meio de tudo, ele apenas lhe dera um terno beijo no pescoço, antes de adormecer. Ela sorrira porque sentindo-se os dois loucos por se terem, mantiveram a razão acordada e, mais que isso, o respeito e a responsabilidade. Os dois figuravam entrelaçados e cobertos por uma manta quente e, ao lado, duas canecas de chocolate quente vazias acompanhavam a cena. Melhor que as suas pinturas era esta imagem que, além de real, era perfeita.
Deus da Noite, dorme em paz. Sou tua...
E eu teu, Sinfonia.
A quilómetros de distância, Sol derramava lágrimas sobre as lembranças que guardara de José. Agora, mais do que nunca, tinha medo do futuro, mas sentia uma chama de amor que, não sendo sua, mas sim de uma estrela, acalentava-lhe o coração e trazia-lhe esperança.

domingo, 13 de abril de 2008

Uma caixa (modificado)

Tinham tocado à campainha e Sol, descalça e com o cabelo apanhado, fora abrir a porta. O carteiro trazia uma caixa com um laçarote. Sol pensava no que seria aquilo: um presente, uma bomba, uma partida de mau gosto?



Puxou pelas pontas do laçarote e retirou a caixa.

Lá dentro estava um brinquedo de criança... Um brinquedo que já tinha sido seu.

Mas quem poderia ter mandado tal coisa?

Sol só pensava que poderia ser bruxaria.

A prenda tinha um cartão, que dizia:

"Lembras-te de brincar com ele? Naquela altura em que os teus cabelos doirados cheiravam a lavanda... No tempo em que dizias que gostavas mais de mim do que os animais!

Um beijo, José."

Ela ria-se e sozinha na sala deixava corar as suas jovens e doces faces.

Ele estava de volta!

O rapaz da aldeia que brincava com ela não se esqueceu do aroma dos seus cabelos nem das coisas que ela falava em pequena.

De repente, Sol ficou com o semblante mais carregado, pois não sabia o que viria a seguir.

Tentou ligar para casa de Sírio, mas esta já tinha saído.

Na verdade, a amiga tinha decidido ir tomar um café e ir ler um livro na pastelaria, situada no rés-do-chão do seu prédio.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

The calling

Os traços, tão perfeitos e dificeis de passar para a tela, não lhe deixavam a mente enquanto falava com Sol ao telefone.
Bem, aquele tipo deixou-me a pensar nele, acreditas? Há imenso tempo que não sabia o que era ter um homem na cabeça! - disse Sirio rindo.
Acredito, acredito! Será que aquele...James...tem algum talento escondido para além dos olhos cor de mar e os cabelos indomáveis cor de noite? - disse a amiga enigmaticamente, apenas para provocar a outra.
Aiiiii! Já aprendente a falar por metáforas, Sol! Não pode ser... Mas tens razão. Aquele protótipo de juba ondulada cor de noite deixou-me KO!... Tento pinta-lo agora, mas é-me impossivel captar a ondulação dos seus olhos... - já estava no sonho, no devaneio puro.
Enfim, amiga! O amigo dele era um pedaço de mau caminho também, sabes... É daquele género de pequeno génio por revelar! Adoro...e até estou confiante face a...Nós... - Sol roçava o mistério.
O quê!!???????? Nós!!!?? - o espanto era evidente para Sirio.
Sim...eu já o conhecia de vista há um tempinho. Desde o primeiro momento que o vi que os meus olhos ficaram colados nele...
Ah!! Mas disseste que o MEU James era um Pão!
Hihihi, eu sei! E não é!?
É!
E as duas amigas riram a bandeiras despregadas.
Olha, vou ter que desligar. Ele...veio estudar comingo!
Imagino que coraste agora, Sol!!
Podes crer...
Pu pu pu pu pu... E a chamada caiu.
Irrah...o amor é tanto que até a chamada cai! - disse Sirio para o silêncio da paredes da sua casa e para a imagem aínda sem coloração no olhar de James...