sexta-feira, 2 de maio de 2008

Um Verão


"Há dias em que o amor me surge como a religião. Não sabemos se existe mas sentimo-la. Não queremos acreditar mas precisamos dela. Nesses dias em que nego que te amo, nessas alturas em que te quero, nesses sonhos em que te abraço, nesses momentos em que o mundo pára e eu consigo que te apaixones por mim... Eu amo-te como sempre te amei... E já inúmeras tempestades e rios passaram por mim e a tua imagem parece inalterável. Gosto de ti e nada mudará... Mas digo-te ao ouvido que não te preocupes... Um dia alguém preencherá uma pequena parte do que tu preencheste e assim, mesmo amando-te... Eu poderei tentar reviver todas as alegrias... Um beijo, meu amor!"

Quem era José para ela, afinal?

Desde os seis anos que Sol passava as férias grandes na aldeia da avó Isabel, ou avó Bel como lhe chamava a neta. Eram três meses esplêndidos de aventura, de carinho, compreensão e cumplicidade. A avó contava as mais belas histórias de amor a Sol. E amorosamente esta foi crescendo na companhia de uma terna avó e dois fiéis companheiros: José, ou Zé ou só “É” e o Becas, cão velhinho que gostava de festas. Sol era a menina da casa… mimada e sorridente.

Com os seus companheiros passeava pelos mais vastos campos de trigo doirado. Quando fazia muito calor mergulhava na ribeira… À tarde ia buscar as vacas com o “É” e o “Becas”. No final do dia aparecia com as meias rasgadas e o vestido sujo de terra, e a sua avó não se importava, porque o sorriso de uma criança é uma cura para qualquer preocupação. Os dias mais felizes daquelas três almas, ou melhor quatro, eram precisamente os que pertenciam aos meses de Junho, Julho e Agosto.

Todas as noites, quando o Becas já dormia e a avó fazia croché, Sol e Zé brincavam no terraço, bebendo um copo de leite morno, contando as estrelas, pedindo desejos, fingindo que o mundo era uma bola de sabão. E numa noite o pequeno de sete anos disse:
- “Têtê” promete que voltas todos os Verões. E que um dia casas comigo. Tu cuidarás de mim e eu construírei
a nossa casa…

Mas enquanto falava, a pequena já tinha adormecido deitada debaixo de uma manta enquanto observava as estrelas. E José muito meigamente beijou-lhe a testa e foi chamar a avó de Sol, para que esta a levasse para a cama.

Muitos mais Verões passaram e Sol e “É” cresciam saudavelmente. José montava pequenas casas em madeira e Sol examinava o “Becas”.
-Olha, “Becas” tens de tomar este xarope que te vou escrever. – E a pequena doutora rabiscou o nome do remédio numa folha de cartão, e é claro que só o fez depois de auscultar o cão com um auscultador feito de palhinhas.

Os anos passaram-se e num último Verão na casa da avó, os dois amigos foram mais uma vez contar as estrelas.
-Zé, não achas que já não temos idade para isto?
- Talvez. Olha, vi uma estrela cadente.
- Pede um desejo! Mas conta! Vá lá! José! – Dizia enquanto sacudia o amigo como se tivesse nove anos.
-Pedi para que nunca deixasses de passar cá os Verões…

E nesse instante em que a Lua iluminava os dois amigos crescidos… José muito ternamente olhava Sol, e esta aproximava a sua cara à do rapaz e com o fechar dos olhos, ambos tocaram com os seus lábios um no outro…

Nesse ano, avó Bel morreu e Sol nunca mais tinha visto José... Aquele encontrão na biblioteca… Passados anos, os dois tinham-se encontrado. Ninguém sabia o futuro daqueles.

Sol tinha medo do amor e José tinha prometido, há alguns anos, que a protegeria sempre contra todas as cobras, lagartos e monstros que morassem debaixo da cama.

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