sexta-feira, 9 de maio de 2008

Indeterminação

Tal como um gráfico de uma função de contra-domínio limitado, a felicidade não tende para o infinito. Aliás, está é como que uma assímptota que, por mais que se tente chegar ao ponto nunca o atinge. Um valor muito elevado, estremamente grande que, mesmo assim, não é suficientemente grande para alcançar o infinito, que ele próprio não alcança...
Era nisto que Sírio pensava enquanto preparava as tintas e as telas para mais uma obra de pintura. Organizava na sua mesa de trabalho as cores, da mais escura para a mais clara, e os pincéis, do mais pequeno para o maior. À sua frente encontrava-se um cavalete com uma tela média com a esquadria já pronta.
Nesse dia, tinha vontade de se dedicar ao abstracto, coisa que há muito tempo não pintava, pois, finalmente, sentia que a sua vida se tornara concreta. Porém, foi no estilo surrealista que se debruçou nesse dia.
À parte as formas meio perceptiveis, o resto do quadro era um enigma. A escolha de cores foi mais cuidada do que poderia parecer à primeira vista, e os contronos muito bem pensados. Havia um significado naquilo tudo, mas Sírio áinda não o conhecia. Toda aquela obra tinha sido um fruto de uma racionalização ou de uma premonição, pensava ela. Todavia, qual das duas? E qual o seu significado para si?
Afastou-se para visualizar a sua Arte em plenitude. Estava magnífico, embora sem sentido aparente. Daria uma bela peça de arte decorativa para uma sala grande, ou para o escritório de um empresário amante da pintura surrealista, apesar de tal corrente artística já ter tido o seu apogeu há decadas.
Nisto, Sírio olha pela janela e vê o belo sorriso de James entre as cortinas. Apressa-se a sair para a rua e abraça-o, como se fosse o último abraço na vida.
Cheiras bem, meu James. Perfume novo? Não me lembro dele... - disse Sírio.
Não te consigo enganar. É, comprei-o ontem, achei que ias gostar dele. - disse Santiago.
Podes crer que adoro, mas gosto ainda mais de ti!
Entretanto entraram em casa e foram admitar as nuvens, de uma tarde de Verão no seu fim, sentados na relva do pequeno jardim das traseiras e entrelaçados um no outro.
Passaram horas assim, como se estas tivessem sido eternas. A felicidade tendia para o infinito, como nas assimptotas de Sírio, à medida que o tempo passava. Mas este tempo era limitado e a felicidade não era ilimitada.
Acho que tenho que ir andando, Sinfonia, ainda preciso de acabar uns trabalho para amanhã. Adorava levar-te a dar um volta hoje à noite mas...
Oh, não faz mal, adorado. Amanhã podemos fazer tudo isso...e mais alguma coisa!
Anseio por isso...
Já estava quase a fechar a porta e ir a correr para ver o seu amado ir embora, quando Sírio se apercebe que ele já não estava à vista. Santiago desfalecera à entrada da casa de Sírio e esta, como que percebendo a sua tela, correu em socorro dele e trouxe-o para dentro.
Ela tentava acorda-lo, mas antes tinha-o deitado na sua cama e trazido água com açúcar. Contudo, Santiago teimava em permanecer incosciente e Sírio estava cada vez mais confusa e nervosa.
Já há 5 minutos que Santiago não reagia e, então, ela resolveu chamar uma ambulância. Esta chegou passados 10 minutos e Santiago foi levado para o hóspital mais próximo.
No caminho, Sírio ponderava acerca da sua pintura e das formas e cores que começavam a ganhar sentido. Porém, havia algo que ela não queria perceber e esperava estar a interpretar mal.
Em casa, a tela repousava e secava ao sabor da suave corrente de ar. No canto inferior direito, onde ela tinha esboçado o seu nome, uma breve mancha cinzenta escura, misturada com outros tons estranhos, escorria, prestes a apagar o seu nome do quadro.

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