quinta-feira, 19 de junho de 2008

Na minha cabeçeira moras tu, livro.

" O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu - íman da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram. Tu. Agora puro vapor do universo. Serves-me de Deus - quem diria? Serves-me no que não sei ser, e é a verdade. (...) Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam. A tua morte alivia-me do medo de morrer. Contigo fora do jogo, diminui o interesse da parada. E se tu morreste, também eu serei capaz de morrer, sem que as ondas nem o céu nem silêncio se transtornem. Cair em ti, cada vez mais longe da mísera ficção de mim."
Fazes-me falta, Inês Pedrosa
No cafezinho do costume Sol e Sírio trocavam detalhes íntimos, confissões e sorrisos.
Vá Sol, agora é a tua vez... O que aconteceu naquela noite?
Pois... Já te tinha contado até ele chegar.
Mas não o final, deixa-te de segredos... Desembucha!
Chegados ao jipe, o rapaz sentou Sol no banco da frente e apertou-lhe o cinto, esta estava inerte e aluada. Depois a correr entrou para o veículo...
Sol...
Podes deixar-me em casa?
Não, não te vou deixar em casa neste estado. Vais lá para casa, tomas um banho, empresto-te as roupas da minha irmã e comes qualquer coisa que te aqueça o estômago.
E assim foi...
Depois de aconchegada com as novas roupas...
Francisco, Mc Math, levou Sol ao café debaixo para tomarem o pequeno-almoço.
Obrigada por tudo o que estás a fazer por mim... Eu...
Agora não interessa o passado... Mas ficas-me a dever um almoço, um lanche e um jantar.
Mas são 3 encontros! E riu-se. Aonde é que eu já vi isto?
Pois... é uma cena de filme!
Apanhado!
É tão bom ver-te sorrir.
Winning a battle, losing the war.
Eu vou visitar o Santiago e vejo-te lá algumas vezes.
Pois... Nem sei o que dizer... Temos de aproveitar o tempo que estamos cá para sermos felizes, quer sejamos pobres ou ricos, independentemente da cor da pele... E é isso que aqueles dois fazem todos os dias.
Tens toda a razão... Mas foi um choque. O que vale é que temos uma quase doutora entre as amizades.
É nestas alturas em que me sinto impotente, que a medicina se torna a minha inimiga.
Vamos marcar o nosso almoço?
Claro.
Oh, então sempre vais almoçar com ele? Pode ser que desta vez sem filmes nem interrupções nem orgulhos as coisas resultem bem, amiga!
Me desculpem todos os apologistas do amor. Mas o amor me recorda aquela matéria de biologia em que descobrimos que os multicelulares foram originados por colónias de células. O amor faz com que sejamos colónias de duas células e isto permite que cresçamos e nos individualizemos. É positivo sim. O amor é cooperação e junção de duas partes que funcionam bem. Deixemo-nos de filmes e romantismos. Somos seres vivos à procura de uma célula para formar colónia, e filhos, assim sucessivamente numa rede a que designamos família.
O amor é fantástico e faz-nos felizes mas é só isso, ponto!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Até ao fim dos tempos!

Não, não te vou contar como foi.


Sol observava as mudanças de expressão que Sírio ia adoptando enquanto rodeava a conversa. Obviamente que não queria pormenores, pois sabia muito bem ''como se fazem os bebés'', porém, era algo que gostava de conhecer melhor antes de se entregar, quem sabe a quem, um dia.


Bem, foi suave, bonito. Olha não sei explicar!


Sorriram as duas, enquanto que uma nuvem levava uma sombra obliqua ao rosto de Sol, não lhe tirando, contudo, qualquer parte do brilho natural.


Vá, foi metafísico... Ai, que parvinha que eu sou! Olha, já sei! Imagina uma almofada fofinha, depois imagina que comes algodão doce, em seguida visualiza uma avalanche, logo a seguir uma erupção vulcânica e... Raios!


Raios também? Poças, Sírio, pensei que fosse tudo mais...calmo e suave como tinhas dito!


Parva, claro que não houve trovoada nenhuma.


Acalmando-se ambas, fizeram retornar o silêncio e, agora, deixavam que as timidas gotas de chuva, que teimavam em não cair, se acumulassem nos cabelos loiros e negros das duas estrelas quais poléns na primeira tarde de Primavera.


Vou guarda-lo para sempre, amiga. Sei, sentimos que está perto, Sol. É inevitável e ele relembra-mo constatemente. Estou mais assustada que ele. Sol, ele vai abraçar a noite... E eu? Eu não vou conseguir, enfim, dar a minha Alma a mais ninguém, pois dele já ela é e com ele irá para além do intocável...



Sírio...



É a verdade, amiga.



Sírio, quem sabe!? Tu vais ficar cá, poças! A tua Alma vai ficar cá, tu tens que continuar a ser tu, não podes deixar que isto te derrote. Ele vai, mas se não o esqueceres ele viverá! Assim também quem és com ele viverá!



Sírio olhava a amiga com admiração e espanto. Sol nunca falara de tal forma, tão profunda e reflectidamente, qual Sábio antigo. Mas o que dizia era verdade, contudo Sírio não tinha certezas quanto ao futuro.



Acho que tens razão. Mas creio que entendes que vai ser muito dificil acordar todos os dias e enfrentar a vida sabendo que nunca mais vou ver e abraçar aquela silhueta e falar com aquele homem...



Podes sempre falar com ele através da Alma, Sírio. Foste tu que me ensinaste.



E, rivalizando com o de James, aquele sorriso, depois de palavras tão belas de amiga, fizeram Sírio prometer para si mesma que a sua Estrela irá acompanhar o brilho do Sol até que a época dos buracos negros chegue, até ao fim dos tempos, enfim.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

I am scary and damage

O termo de uma amizade, de um amor, de uma capacidade ou de uma fase da vida pode ser doloroso. Mas por outro lado, quando algo termina outro começa. E o que nos falta saber é se esta nova novidade será boa ou má. Por vezes, quando esta é má só queremos que volte a terminar. A vida é um ciclo de ciclos.
E cá estou, Sol, sentada num banco ressequido castanho com um livro de capa dura verde, como sempre gostei e neguei, pronta a escrever mais um capítulo. Não sei como aquele pequeno jeito com as palavras me escapou. Desisti dele, se bem me lembro e agora que tento dar-lhe continuidade, as palavras voam e correm entre as brechas, arestas e ruas. Cá estou eu mais uma vez, de lápis de cor verde na mão, como gosto, estagnada na primeira página vazia, branca e frígida. Há dias em que me sinto como ela e peço a Deus que alguém com engelho me pinte um retrato, uma paisagem ou uma palavra bonita, dessas que voaram.
Peço desculpa por não ser a maior personagem de BD, nem a heroína de romances. Nasci pequenina e sempre pequenina fiquei apesar de, sempre querer dar passos maiores que as minhas pernas permitem. Não sou nenhuma princesa da Disney, apenas princesa do ar. Não arrisco ao desbarato nem acredito muitas vezes em mim. Acompanho-me de uma lista de objectivos, que tento cumprir rigorosamente. Não faço tudo bem à primeira. Não sou a melhor personagem... Mas por momentos gosto de ser assim, diferente, assustadora e em perigo de ruir.


O dia estava quente e claro e as nossas duas personagens principais estavam no cafézinho da esquina de sempre a conversar. Na mesa estavam dois cafés e palavras de carinho, afecto e incentivo.

Juntas combinaram sair para desanuviar, uma simples saída pois Sírio não podia perder tempo para estar com Santiago.

Sol tivera notícias de José, este tinha encontrado um outro amor... Palmira, que como se pode ver pelo nome é uma rapariga de aldeia.

...

As palavras voaram e por agora, uso destas sem sabor, na procura pelo tempero da vida.

(Continuação...)

Soundtrack: Kiss Me - Sixpence None the Richer

A noite estava pintada de cinza e negro e no alto visualizavam-se duas estrelas brilhantes cada uma à sua maneira, uma um pouco mais apimentada e outra mais doce, mas ambas com imenso sal, metaforicamente referindo-me a Sírio e Sol cheias de esperança e de braços dados.

Os corpos fluiam numa rebeldia de cabelos claros e escuros, curtos e compridos, lisos e encarolados. As palavras de loucura saiam embebecidas de saudade e os problemas esses tomavam os contornos de todas as caras e numa turtulia, as cuscovilhices entravam e saiam de rompante como se de uma tourada se tratasse.

Flash-backs e visões iludiam os olhares mais reflectidos e todas as paixões, conversas de café, sessões de qualquer tipo inundavam um continente instável de sentimentos.

Sol avistou do seu posto um rosto familiar contornado de beijos inesqueciveis e de pedaços felizes de uma vida de recortes e costuras. Aproximou-se a medo e pela última vez olhou-o como se fosse uma última vez, pelo menos seria esse o desejo. Contrariamente do que se pensava, estes aglomerados de gente aproximaram-se e num abraço terno trocaram juras de amizade...

Foi contigo que aprendi a jogar aquele jogo em que tentamos chegar ao número vinte e quatro através dos animais...

Foste tu que cuidaste do Becas e de mim quando um rasgão no meu joelho fazia encarniçar as pedras da calçada e com um beijinho dizias que amanhã já estaria bom...

Foste tu quem me ensinou a ver as estrelas e me seguraste pelo braço, beijando uma bochecha e me disseste que gostavas de mim como de todas plantas. Tiveste o engenho de ser o primeiro, tiveste o jeito de me fazer corar, amanheceste na minha mente e nos meus lábios...

O tempo passou e já não somos mais aquelas crianças... Mas trazer-te-ei sempre debaixo da minha asa quando o frio e o nervoso se apoderarem de uma menina-mulher decidida.

Vai, a felicidade chama por ti. A aldeia pertence-te e serás muito feliz com a Palmira, tu mereces.

Vai correr tudo bem, eu sei que tu consegues...

Desculpa-me aquele abandono... Nunca gostei tanto de ninguém como de ti!

E saindo pelo caminho, sempre a olhar para Sol, Zé cantava:

Nobody knows it but you've got a secret smile

And you use it only for me

Nobody knows it but you've got a secret smile

And you use it only for me

O ciclo fechava-se e seguindo com os sapatos na mão, deixando pegadas de solidão, ia Sol. Sentara-se na porta de uma casa e olhando o céu perguntou-se:

E agora? O que é suposto fazer? Ó tu dono de todos os destinos, não sabes pois não? Logo vi!

A lágrima corria-lhe a face...

As nuvens carregadas de segredos e amores desabaram e de um momento para o outro, uma chuva torrencial desarmou... Um jipe na beira da rua fazendo sinal de luzes se aproximava. Um corpo molhado, musculado de camisa e umas calças de fazenda seguiam as pistas deixadas.

O que estás aqui a fazes encharcada e descalça? Anda comigo...

Não! Eu quero ficar aqui.

Pronto...

E agarrando-lhe o braço com força lhe beijava a bochecha, sussurando-lhe ao ouvido...

Vamos embora, estás encharcada e ainda ficas doente!

Pegando nela ao colo, como se tratasse de uma criança de seis anos, e acariciando-lhe o cabelo, lhe beijava a testa...

Amanhã já vais estar boa!