sexta-feira, 6 de junho de 2008

I am scary and damage

O termo de uma amizade, de um amor, de uma capacidade ou de uma fase da vida pode ser doloroso. Mas por outro lado, quando algo termina outro começa. E o que nos falta saber é se esta nova novidade será boa ou má. Por vezes, quando esta é má só queremos que volte a terminar. A vida é um ciclo de ciclos.
E cá estou, Sol, sentada num banco ressequido castanho com um livro de capa dura verde, como sempre gostei e neguei, pronta a escrever mais um capítulo. Não sei como aquele pequeno jeito com as palavras me escapou. Desisti dele, se bem me lembro e agora que tento dar-lhe continuidade, as palavras voam e correm entre as brechas, arestas e ruas. Cá estou eu mais uma vez, de lápis de cor verde na mão, como gosto, estagnada na primeira página vazia, branca e frígida. Há dias em que me sinto como ela e peço a Deus que alguém com engelho me pinte um retrato, uma paisagem ou uma palavra bonita, dessas que voaram.
Peço desculpa por não ser a maior personagem de BD, nem a heroína de romances. Nasci pequenina e sempre pequenina fiquei apesar de, sempre querer dar passos maiores que as minhas pernas permitem. Não sou nenhuma princesa da Disney, apenas princesa do ar. Não arrisco ao desbarato nem acredito muitas vezes em mim. Acompanho-me de uma lista de objectivos, que tento cumprir rigorosamente. Não faço tudo bem à primeira. Não sou a melhor personagem... Mas por momentos gosto de ser assim, diferente, assustadora e em perigo de ruir.


O dia estava quente e claro e as nossas duas personagens principais estavam no cafézinho da esquina de sempre a conversar. Na mesa estavam dois cafés e palavras de carinho, afecto e incentivo.

Juntas combinaram sair para desanuviar, uma simples saída pois Sírio não podia perder tempo para estar com Santiago.

Sol tivera notícias de José, este tinha encontrado um outro amor... Palmira, que como se pode ver pelo nome é uma rapariga de aldeia.

...

As palavras voaram e por agora, uso destas sem sabor, na procura pelo tempero da vida.

(Continuação...)

Soundtrack: Kiss Me - Sixpence None the Richer

A noite estava pintada de cinza e negro e no alto visualizavam-se duas estrelas brilhantes cada uma à sua maneira, uma um pouco mais apimentada e outra mais doce, mas ambas com imenso sal, metaforicamente referindo-me a Sírio e Sol cheias de esperança e de braços dados.

Os corpos fluiam numa rebeldia de cabelos claros e escuros, curtos e compridos, lisos e encarolados. As palavras de loucura saiam embebecidas de saudade e os problemas esses tomavam os contornos de todas as caras e numa turtulia, as cuscovilhices entravam e saiam de rompante como se de uma tourada se tratasse.

Flash-backs e visões iludiam os olhares mais reflectidos e todas as paixões, conversas de café, sessões de qualquer tipo inundavam um continente instável de sentimentos.

Sol avistou do seu posto um rosto familiar contornado de beijos inesqueciveis e de pedaços felizes de uma vida de recortes e costuras. Aproximou-se a medo e pela última vez olhou-o como se fosse uma última vez, pelo menos seria esse o desejo. Contrariamente do que se pensava, estes aglomerados de gente aproximaram-se e num abraço terno trocaram juras de amizade...

Foi contigo que aprendi a jogar aquele jogo em que tentamos chegar ao número vinte e quatro através dos animais...

Foste tu que cuidaste do Becas e de mim quando um rasgão no meu joelho fazia encarniçar as pedras da calçada e com um beijinho dizias que amanhã já estaria bom...

Foste tu quem me ensinou a ver as estrelas e me seguraste pelo braço, beijando uma bochecha e me disseste que gostavas de mim como de todas plantas. Tiveste o engenho de ser o primeiro, tiveste o jeito de me fazer corar, amanheceste na minha mente e nos meus lábios...

O tempo passou e já não somos mais aquelas crianças... Mas trazer-te-ei sempre debaixo da minha asa quando o frio e o nervoso se apoderarem de uma menina-mulher decidida.

Vai, a felicidade chama por ti. A aldeia pertence-te e serás muito feliz com a Palmira, tu mereces.

Vai correr tudo bem, eu sei que tu consegues...

Desculpa-me aquele abandono... Nunca gostei tanto de ninguém como de ti!

E saindo pelo caminho, sempre a olhar para Sol, Zé cantava:

Nobody knows it but you've got a secret smile

And you use it only for me

Nobody knows it but you've got a secret smile

And you use it only for me

O ciclo fechava-se e seguindo com os sapatos na mão, deixando pegadas de solidão, ia Sol. Sentara-se na porta de uma casa e olhando o céu perguntou-se:

E agora? O que é suposto fazer? Ó tu dono de todos os destinos, não sabes pois não? Logo vi!

A lágrima corria-lhe a face...

As nuvens carregadas de segredos e amores desabaram e de um momento para o outro, uma chuva torrencial desarmou... Um jipe na beira da rua fazendo sinal de luzes se aproximava. Um corpo molhado, musculado de camisa e umas calças de fazenda seguiam as pistas deixadas.

O que estás aqui a fazes encharcada e descalça? Anda comigo...

Não! Eu quero ficar aqui.

Pronto...

E agarrando-lhe o braço com força lhe beijava a bochecha, sussurando-lhe ao ouvido...

Vamos embora, estás encharcada e ainda ficas doente!

Pegando nela ao colo, como se tratasse de uma criança de seis anos, e acariciando-lhe o cabelo, lhe beijava a testa...

Amanhã já vais estar boa!

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