quarta-feira, 28 de maio de 2008

Eterna Omnipresença

Rosas negras e murchas adornam a campa do mais amado à face da Terra. Amado divinalmente por uma Estrela, a mais brilhante do céu, que, apesar de mudar de posição na abóbada celeste, nunca deixa de brilhar para o criador da sua luz, o seu Deus. Um Deus humano desconhecido de qualquer religião, um Deus mais que omnipotente, cujo único seguidor possui a força do Universo e dela faz uso amando-o incondicionalmente.

Esta poderia ser a história daquela velhinha, já de bengala a tremer, que ali caminha ao fundo e que, fielmente, continua a visitar a campa do marido que faleceu há muitas décadas. Marido este que amou, ama e amará eternamente, em vida e em morte, em tudo e em nada, transcendentemente. Morreu ele, ficou ela viva para sofrer a dor de nunca mas nunca mais o poder abraçar para além das memórias que ainda mantém.

Pétalas e pétalas tira ela de cima da lápide e, terminada esta tarefa, senta-se, esforçadamente, ao pé dele e conversam durante a tarde inteira até quase ser hora de o cemitério encerrar. Ela conta-lhe quantas saudades tem, fala-lhe do perpétuo desejo que dele tem, pergunta-lhe o que ele sente, responde-lhe que não sabe quando irão, finalmente, poder estar juntos para sempre. Porém, no meio de tanto afecto, existe uma lágrima de revolta que ela chora sem qualquer vergonha. Porque é que nunca me contaste? Mas o que poderíamos nós ter feito? Tivéssemos nós feito o que quer que tivesse sido teria acontecido tudo igual?...

Cansada e não conseguindo, agora, ver claramente a face do muito amado na fotografia da lápide, levanta-se, novamente a custo, e despede-se dele. Vamos encontrar-nos daqui a pouco, meu amor, pois em sonhos te guardo, sabes disso. Em sonhos recordo o teu abraço, sinto o teu beijo, voltamos a fazer amor, oiço a tua voz e, juntos, regredimos no tempo e voltamos a ter 22 e 23 anos, voltamos a ser jovens inexperientes a descobrir os mistérios do Universo. Até logo.

Contudo, ao chegar a casa, surge-lhe, de repente, à frente uma cortina tingida a vermelho, cinzento e uma cor estranha e impossível de definir, que tanto alterna para tons esverdeados como, sob a perspectiva de outro ângulo, se torna azulada. Com o susto, tomba para o lado e, não tendo uma parede para se apoiar, cai, mas não embate no chão, antes mergulha nas águas geladas de um rio. Não consegue respirar, está assustada. No entanto, quando consegue, sem saber como, emergir, os seus cabelos escuros começam a apertar-lhe o corpo. Estes estendem-se até distâncias infinitas, impossivelmente imensos e cobrindo tudo à sua volta. Porém, como que instantaneamente, uma mecha dos cabelos titânicos abre-se e ela vislumbra dois jovens amantes que, depois de se beijarem à chuva, fogem para longe daquele lugar que nunca mais os esquecerá. Sabe bem quem eles são, pois prometera ao seu amado que se encontrariam novamente em sonhos, porém, ela apenas assiste, quem foge para longe com o seu amado é ela e não ela.

Segundos mais tarde, como que num turbilhão, regressa à entrada de sua casa e, quando está quase a alcançar a porta, volta a cair, mas, desta vez, sente a dureza do solo. Sem se conseguir levantar, tenta virar-se para gritar por ajuda. No entanto, mal abre a boca, um vulto masculino aparece do nada e cobre-a com um tecido rugoso que lhe fazia comichão. A sensação de calor que rapidamente a contagiou era insuportável. O cobertor apertava-a, deixava-a desesperada. O vulto, que agora ela reconhecia perfeitamente, aproximou-se dela e, passando-lhe a mão suave pela face e desenhando-lhe o traço das bochechas, disse-lhe baixinho: Até logo…

Enquanto o vulto se apagava, o tecido elevava-se na sua frente e apresentava-se diante de si como uma pintura surrealista plena de significado por interpretar, cujo nome do autor estava esborratado no canto inferior direito, moldado numa figura indescritível, escorrida numa cor indefinível. Respirava o terror e o pânico que emanava daquela obra de arte.

JAMES!

Sírio acordou sobressaltada e, ao olhar para a janela em busca de uma paisagem real e um indício de sanidade, deparou-se com um quadro de estilo surreal cujo nome do autor era impossível de distinguir na amálgama de cores que reinavam no canto inferior direito do mesmo. Sentindo-se invadida pelo horror, levantou-se rapidamente, sentiu leves tonturas, e foi lavar a cara à casa de banho. Contudo, ao olhar-se ao espelho viu a face de uma bela octogenária, de cabelos infinitos e ainda negros como a noite, de olhar sonhador e apaixonado. Fechou os olhos e voltou a abri-los. Agora via-se a si, de olhar verde, cabelo escuro desgrenhado, mãos trémulas e terror na expressão.

Resolveu conservar a razão e pôs o pânico de lado, para nele pegar mais tarde, e preparou-se para ir ter com Santiago ao hospital. Era o dia de ele ter alta e estava ansiosa por poder guardar o seu tesouro, protegendo-o com todas as chaves do Universo.

Já no corredor do hospital, enquanto se encaminhava para o seu amado, lembrou-se da octogenária estranha. Bem sempre me chamaram estranha, não é? Se for assim quando for velha acho que vai ser bom… Mal sabia ela o que, sem querer, estava a desejar para si.
Sírio…

James, meu amor. Eu ainda não acredito nisto, eu nem sei o que dizer, eu só quero que saibas que, enfim, estou e estarei sempre aqui, juntos vamos superar tudo o que vier. Juntos, sempre!

Nunca duvidei, Sinfonia. Pensei em ti todo o tempo…

E eu. Nem sabes como me custou tentar dormir sem ti a meu lado…

Dormir?

Ah! – Ela sorria como se eles não passassem de um par de jovens normal que agora começa a descobrir o verdadeiro amor.

Sírio?

Sim?

Se eu por acaso…

Santiago, por favor…

Sírio, se eu por acaso morrer, eu… Não, Sírio, eu não tenho medo. Desde que tenha a tua luz como salvaguarda não tenho medo de fechar os olhos.

Nunca vais morrer para mim. És eu e eu sou tu, estarás, assim, vivo em mim. Somos tão líricos, não é? Mas ainda bem que encaramos tudo com naturalidade, meu querido.

Tens razão. Só assim somos felizes, Estrelita.

É.
Ah, temos que ir fazer o Caminho de Santiago, ouvi falar que se aprendem imensos ensinamentos úteis ao dia-a-dia e que o roteiro é muito interessante, seria deveras apaixonante…

Ai, podes ter a certeza, também já li sobre isso e, não só porque é do MEU caminho que se trata, mas porque seria enriquecedor em termos culturais! Mas…que raio?! O meu caminho és tu!

Eu sei, mas esse caminho só há um fiel a faze-lo…Sabes, hoje tive um pesadelo, meio sonho, muito estranho, como que uma premonição. Tenho que te contar mais tarde, não resisto.

E eu não te resisto a ti, linda!

Estou ansiosa para que me demonstres isso, Santiago, O Santo…

O olhar de ambos era caçador e divertido, alimentando-se da boa disposição um do outro, quase que revelando uma vontade de se terem ali mesmo. Mas era hora de regressar à vida quotidiana e esperar que o Sol lhes continuasse a iluminar o caminho. Esperar que Sol iluminasse o Caminho de Santiago.

Amo-te? – Perguntou, trocista, James.

Amas. – Disse Sírio por entre um beijo cheio de saudade.


E, envolvendo-a num abraço forte, como se fosse ela quem precisasse de protecção, o Deus sorri à sua Estrela com a força do Universo e esta envolve-o com a omnipotência da sua devoção.

quarta-feira, 14 de maio de 2008


Como todas as histórias, a vida tem de prosseguir e Sol voltara a casa para retomar o estudo, lavar a roupa suja, passar a ferro depois desta anterior ter secado, tratar da sua higiene diária e arrumar as roupas por cor e por fim, lavar todas as canecas de café que sujara enquanto realizava maratonas de estudo na sua varanda.


Depois de semi-organizada uma vida, porque uma vida nunca tem organização, decidiu descer ao café da esquina e comprar pão quente e outros mantimentos. Quando toda a sua existência parecia estar coordenada e em ordem...


-Podemos conversar? - disse José.


-Claro. - sorriu-lhe Sol.


Sentaram-se numa mesinha do singelo café e tomando uma água e um café...


-Decidi levar-te comigo neste fim-de-semana grande à aldeia da tua...


-Avó.


-Isso...


-Oh, José. Eu quero ficar por cá, o namorado da Sírio está muito doente. Ainda agora consegui voltar a organizar o meu tempo e casa para o estudo.


- Não sabia que o Santiago estava doente... Podias me ter dito alguma coisa e eu estava lá. Afinal, há dias que não me contactas, desde a pintura da tua casa... Não percebo como te distancias! Não percebo como não organizas a tua vida para mim... Como fazes com a disciplina de Anatomia.


- Eu não estou pronta para me relacionar. Eu sou assim: assustadora e magoada. Eu não faço amigos facilmente... Eu não me dou... Eu não estou pronta. O meu ambiente familiar não foi o melhor. A minha avó morreu. O rapaz de quem eu sempre gostei...



Porque há pessoas que não gostam de saltos grandes, porque as pernas delas não o permitem.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Full Circle

Acompanhantes de Santiago...?
Eu!
Por favor, siga-me.

Os corredores, brancos, como que uma paz aparente, inundavam o olhar de Sírio enquanto esta seguia o médico pelo meio dos doentes acamados nos corredores.

Entre, por favor.

O gabinete era acolhedor, mas emanava dele um cheiro a álcool étílico e éter que lhe dava uma sensação de pânico.

Bom, o seu...
Companheiro.
Exacto, não sei se o paciente já lhe tinha contado alguma vez mas...
Mas o quê?
Acalme-se.
Não consigo!
Eu entendo. Bem, já não é a primeira vez que o Santiago aparece de urgência na minha Ala.
O quê? Mas então que...
Ele tem um problema grave com o qual tem que viver, pois não há forma de cura sem envolver um risco.

E tudo o que o médico disse a partir dali Sírio não escutou mais. Ela apenas pensava naquele passeio à beira-rio com James. Como pode não ter notado algo nele de errado? Clafro está que ele não lhe iria destruir a felicidade com o seu problema, qualquer que ele fosse. No entanto, tinha o direito de saber o que o amor da sua Alma tinha de tão...incurável.

Não sei o seu nome...
Chame-me Sírio, por favor.
Bem, com certeza.

O coração parou.

Sírio, o Santiago tem um aneurisma grave na artéria Aorta.

Os olhos fixaram-se nos azuis do médico, que lhe lembravam vagamente dos de Santiago.

Doutor...

O perito olhou-a profundamente nos olhos vagos e visualizou mentalmente o rumo da história da jovem mulher na sua frente.

Se o coração de James por mim não deve pulsar, que seja este o meu fim!

Sol esperava Sírio no lado de fora, mas tinha ouvido o seu grito bestial e esperava-a para a poder embalar no seu abraço caloroso.
Quando Sírio chocou com os braços da amiga, neles derramou lágrimas reprimidas de muitos anos, tristezas e alegrias breves, um circulo que quase estava completo.

Sol...
Minha amiga, não sei o que sentir, nem dizer, nem...
I've come full circle!

E Sírio deixou-se embalar pelo desespero e entregou-se à loucura.

how to save a life

"Abriu o encadernado e cheiroso livro... Contou uma história... Aprendeu que os Reis, rainhas e o povo não nascem já homens, estes também erram. Mas todos os erros trazem na sua cauda aprendizagens. Errar é viver... Errei para mais tarde, perceber que o teu amor nunca foi amor... E não me venham com tretas! Não se ama alguém desta maneira! E um dia... tu vais sentir aquilo que te falo, todas estas palavras que um dia escrevi imaginando-te. Um dia vais amar, não hoje, talvez amanhã. E assim, nunca mais te amarei, nunca mais te desejarei, nunca mais terei fantasias... Adeus, e não te desejo boa sorte!"


Inspirado em Grey's Anatomy


Sol deixara que o vazio a invadisse; sentia-se longe de todas as pessoas; deixara de ter vontade de escrever e até de voltar a sorrir. Talvez um dia volte a escrever contos infantis.


Recebeu a mensagem e dirigiu-se para o hospital.


Naquele momento sabia que teria de deixar toda a tristeza no lado da porta daquele edificio. Entrou e o ar cheio de tensão, de fé e de esperança beijou todo aquele corpo inerte.


Ao longe avistou Sírio, tinha saudades é certo mas nada lhe despertara os sentidos, aproximou-se e avistou uns tristes olhos verdes. Abraçaram-se como se sentissem que o fim estava próximo, sentiram o cheiro da separação e o arrepio de que mais um ciclo teria chegado ao fim.


Juntas aguardaram, de mãos dadas, por uma boa nova, por um novo ciclo, por uma chama.


O tempo estava a escassear... Olharam para trás e para se animarem... recordaram o momento em que se conheceram. Os corações destas estavam novamente esperançados.


A esperança e a fé está em cada um de nós, basta saber procurar lá no fundo. E toda aquela confiança nas nossas capacidades emerge. E por momentos, o mundo parece sorrir-nos. Acreditamos nos sentimentos e na verdade. Nem sempre é assim...


Um final, aproxima-se....
Todas as palavras formariam um mar,onde boiaria todo o amor;e retirando a tampa,todo esse fujiria pelo cano,até ao mar, de novo.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Indeterminação

Tal como um gráfico de uma função de contra-domínio limitado, a felicidade não tende para o infinito. Aliás, está é como que uma assímptota que, por mais que se tente chegar ao ponto nunca o atinge. Um valor muito elevado, estremamente grande que, mesmo assim, não é suficientemente grande para alcançar o infinito, que ele próprio não alcança...
Era nisto que Sírio pensava enquanto preparava as tintas e as telas para mais uma obra de pintura. Organizava na sua mesa de trabalho as cores, da mais escura para a mais clara, e os pincéis, do mais pequeno para o maior. À sua frente encontrava-se um cavalete com uma tela média com a esquadria já pronta.
Nesse dia, tinha vontade de se dedicar ao abstracto, coisa que há muito tempo não pintava, pois, finalmente, sentia que a sua vida se tornara concreta. Porém, foi no estilo surrealista que se debruçou nesse dia.
À parte as formas meio perceptiveis, o resto do quadro era um enigma. A escolha de cores foi mais cuidada do que poderia parecer à primeira vista, e os contronos muito bem pensados. Havia um significado naquilo tudo, mas Sírio áinda não o conhecia. Toda aquela obra tinha sido um fruto de uma racionalização ou de uma premonição, pensava ela. Todavia, qual das duas? E qual o seu significado para si?
Afastou-se para visualizar a sua Arte em plenitude. Estava magnífico, embora sem sentido aparente. Daria uma bela peça de arte decorativa para uma sala grande, ou para o escritório de um empresário amante da pintura surrealista, apesar de tal corrente artística já ter tido o seu apogeu há decadas.
Nisto, Sírio olha pela janela e vê o belo sorriso de James entre as cortinas. Apressa-se a sair para a rua e abraça-o, como se fosse o último abraço na vida.
Cheiras bem, meu James. Perfume novo? Não me lembro dele... - disse Sírio.
Não te consigo enganar. É, comprei-o ontem, achei que ias gostar dele. - disse Santiago.
Podes crer que adoro, mas gosto ainda mais de ti!
Entretanto entraram em casa e foram admitar as nuvens, de uma tarde de Verão no seu fim, sentados na relva do pequeno jardim das traseiras e entrelaçados um no outro.
Passaram horas assim, como se estas tivessem sido eternas. A felicidade tendia para o infinito, como nas assimptotas de Sírio, à medida que o tempo passava. Mas este tempo era limitado e a felicidade não era ilimitada.
Acho que tenho que ir andando, Sinfonia, ainda preciso de acabar uns trabalho para amanhã. Adorava levar-te a dar um volta hoje à noite mas...
Oh, não faz mal, adorado. Amanhã podemos fazer tudo isso...e mais alguma coisa!
Anseio por isso...
Já estava quase a fechar a porta e ir a correr para ver o seu amado ir embora, quando Sírio se apercebe que ele já não estava à vista. Santiago desfalecera à entrada da casa de Sírio e esta, como que percebendo a sua tela, correu em socorro dele e trouxe-o para dentro.
Ela tentava acorda-lo, mas antes tinha-o deitado na sua cama e trazido água com açúcar. Contudo, Santiago teimava em permanecer incosciente e Sírio estava cada vez mais confusa e nervosa.
Já há 5 minutos que Santiago não reagia e, então, ela resolveu chamar uma ambulância. Esta chegou passados 10 minutos e Santiago foi levado para o hóspital mais próximo.
No caminho, Sírio ponderava acerca da sua pintura e das formas e cores que começavam a ganhar sentido. Porém, havia algo que ela não queria perceber e esperava estar a interpretar mal.
Em casa, a tela repousava e secava ao sabor da suave corrente de ar. No canto inferior direito, onde ela tinha esboçado o seu nome, uma breve mancha cinzenta escura, misturada com outros tons estranhos, escorria, prestes a apagar o seu nome do quadro.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Um Verão


"Há dias em que o amor me surge como a religião. Não sabemos se existe mas sentimo-la. Não queremos acreditar mas precisamos dela. Nesses dias em que nego que te amo, nessas alturas em que te quero, nesses sonhos em que te abraço, nesses momentos em que o mundo pára e eu consigo que te apaixones por mim... Eu amo-te como sempre te amei... E já inúmeras tempestades e rios passaram por mim e a tua imagem parece inalterável. Gosto de ti e nada mudará... Mas digo-te ao ouvido que não te preocupes... Um dia alguém preencherá uma pequena parte do que tu preencheste e assim, mesmo amando-te... Eu poderei tentar reviver todas as alegrias... Um beijo, meu amor!"

Quem era José para ela, afinal?

Desde os seis anos que Sol passava as férias grandes na aldeia da avó Isabel, ou avó Bel como lhe chamava a neta. Eram três meses esplêndidos de aventura, de carinho, compreensão e cumplicidade. A avó contava as mais belas histórias de amor a Sol. E amorosamente esta foi crescendo na companhia de uma terna avó e dois fiéis companheiros: José, ou Zé ou só “É” e o Becas, cão velhinho que gostava de festas. Sol era a menina da casa… mimada e sorridente.

Com os seus companheiros passeava pelos mais vastos campos de trigo doirado. Quando fazia muito calor mergulhava na ribeira… À tarde ia buscar as vacas com o “É” e o “Becas”. No final do dia aparecia com as meias rasgadas e o vestido sujo de terra, e a sua avó não se importava, porque o sorriso de uma criança é uma cura para qualquer preocupação. Os dias mais felizes daquelas três almas, ou melhor quatro, eram precisamente os que pertenciam aos meses de Junho, Julho e Agosto.

Todas as noites, quando o Becas já dormia e a avó fazia croché, Sol e Zé brincavam no terraço, bebendo um copo de leite morno, contando as estrelas, pedindo desejos, fingindo que o mundo era uma bola de sabão. E numa noite o pequeno de sete anos disse:
- “Têtê” promete que voltas todos os Verões. E que um dia casas comigo. Tu cuidarás de mim e eu construírei
a nossa casa…

Mas enquanto falava, a pequena já tinha adormecido deitada debaixo de uma manta enquanto observava as estrelas. E José muito meigamente beijou-lhe a testa e foi chamar a avó de Sol, para que esta a levasse para a cama.

Muitos mais Verões passaram e Sol e “É” cresciam saudavelmente. José montava pequenas casas em madeira e Sol examinava o “Becas”.
-Olha, “Becas” tens de tomar este xarope que te vou escrever. – E a pequena doutora rabiscou o nome do remédio numa folha de cartão, e é claro que só o fez depois de auscultar o cão com um auscultador feito de palhinhas.

Os anos passaram-se e num último Verão na casa da avó, os dois amigos foram mais uma vez contar as estrelas.
-Zé, não achas que já não temos idade para isto?
- Talvez. Olha, vi uma estrela cadente.
- Pede um desejo! Mas conta! Vá lá! José! – Dizia enquanto sacudia o amigo como se tivesse nove anos.
-Pedi para que nunca deixasses de passar cá os Verões…

E nesse instante em que a Lua iluminava os dois amigos crescidos… José muito ternamente olhava Sol, e esta aproximava a sua cara à do rapaz e com o fechar dos olhos, ambos tocaram com os seus lábios um no outro…

Nesse ano, avó Bel morreu e Sol nunca mais tinha visto José... Aquele encontrão na biblioteca… Passados anos, os dois tinham-se encontrado. Ninguém sabia o futuro daqueles.

Sol tinha medo do amor e José tinha prometido, há alguns anos, que a protegeria sempre contra todas as cobras, lagartos e monstros que morassem debaixo da cama.