Rosas negras e murchas adornam a campa do mais amado à face da Terra. Amado divinalmente por uma Estrela, a mais brilhante do céu, que, apesar de mudar de posição na abóbada celeste, nunca deixa de brilhar para o criador da sua luz, o seu Deus. Um Deus humano desconhecido de qualquer religião, um Deus mais que omnipotente, cujo único seguidor possui a força do Universo e dela faz uso amando-o incondicionalmente.
Esta poderia ser a história daquela velhinha, já de bengala a tremer, que ali caminha ao fundo e que, fielmente, continua a visitar a campa do marido que faleceu há muitas décadas. Marido este que amou, ama e amará eternamente, em vida e em morte, em tudo e em nada, transcendentemente. Morreu ele, ficou ela viva para sofrer a dor de nunca mas nunca mais o poder abraçar para além das memórias que ainda mantém.
Pétalas e pétalas tira ela de cima da lápide e, terminada esta tarefa, senta-se, esforçadamente, ao pé dele e conversam durante a tarde inteira até quase ser hora de o cemitério encerrar. Ela conta-lhe quantas saudades tem, fala-lhe do perpétuo desejo que dele tem, pergunta-lhe o que ele sente, responde-lhe que não sabe quando irão, finalmente, poder estar juntos para sempre. Porém, no meio de tanto afecto, existe uma lágrima de revolta que ela chora sem qualquer vergonha. Porque é que nunca me contaste? Mas o que poderíamos nós ter feito? Tivéssemos nós feito o que quer que tivesse sido teria acontecido tudo igual?...
Cansada e não conseguindo, agora, ver claramente a face do muito amado na fotografia da lápide, levanta-se, novamente a custo, e despede-se dele. Vamos encontrar-nos daqui a pouco, meu amor, pois em sonhos te guardo, sabes disso. Em sonhos recordo o teu abraço, sinto o teu beijo, voltamos a fazer amor, oiço a tua voz e, juntos, regredimos no tempo e voltamos a ter 22 e 23 anos, voltamos a ser jovens inexperientes a descobrir os mistérios do Universo. Até logo.
Contudo, ao chegar a casa, surge-lhe, de repente, à frente uma cortina tingida a vermelho, cinzento e uma cor estranha e impossível de definir, que tanto alterna para tons esverdeados como, sob a perspectiva de outro ângulo, se torna azulada. Com o susto, tomba para o lado e, não tendo uma parede para se apoiar, cai, mas não embate no chão, antes mergulha nas águas geladas de um rio. Não consegue respirar, está assustada. No entanto, quando consegue, sem saber como, emergir, os seus cabelos escuros começam a apertar-lhe o corpo. Estes estendem-se até distâncias infinitas, impossivelmente imensos e cobrindo tudo à sua volta. Porém, como que instantaneamente, uma mecha dos cabelos titânicos abre-se e ela vislumbra dois jovens amantes que, depois de se beijarem à chuva, fogem para longe daquele lugar que nunca mais os esquecerá. Sabe bem quem eles são, pois prometera ao seu amado que se encontrariam novamente em sonhos, porém, ela apenas assiste, quem foge para longe com o seu amado é ela e não ela.
Segundos mais tarde, como que num turbilhão, regressa à entrada de sua casa e, quando está quase a alcançar a porta, volta a cair, mas, desta vez, sente a dureza do solo. Sem se conseguir levantar, tenta virar-se para gritar por ajuda. No entanto, mal abre a boca, um vulto masculino aparece do nada e cobre-a com um tecido rugoso que lhe fazia comichão. A sensação de calor que rapidamente a contagiou era insuportável. O cobertor apertava-a, deixava-a desesperada. O vulto, que agora ela reconhecia perfeitamente, aproximou-se dela e, passando-lhe a mão suave pela face e desenhando-lhe o traço das bochechas, disse-lhe baixinho: Até logo…
Enquanto o vulto se apagava, o tecido elevava-se na sua frente e apresentava-se diante de si como uma pintura surrealista plena de significado por interpretar, cujo nome do autor estava esborratado no canto inferior direito, moldado numa figura indescritível, escorrida numa cor indefinível. Respirava o terror e o pânico que emanava daquela obra de arte.
JAMES!
Sírio acordou sobressaltada e, ao olhar para a janela em busca de uma paisagem real e um indício de sanidade, deparou-se com um quadro de estilo surreal cujo nome do autor era impossível de distinguir na amálgama de cores que reinavam no canto inferior direito do mesmo. Sentindo-se invadida pelo horror, levantou-se rapidamente, sentiu leves tonturas, e foi lavar a cara à casa de banho. Contudo, ao olhar-se ao espelho viu a face de uma bela octogenária, de cabelos infinitos e ainda negros como a noite, de olhar sonhador e apaixonado. Fechou os olhos e voltou a abri-los. Agora via-se a si, de olhar verde, cabelo escuro desgrenhado, mãos trémulas e terror na expressão.
Resolveu conservar a razão e pôs o pânico de lado, para nele pegar mais tarde, e preparou-se para ir ter com Santiago ao hospital. Era o dia de ele ter alta e estava ansiosa por poder guardar o seu tesouro, protegendo-o com todas as chaves do Universo.
Já no corredor do hospital, enquanto se encaminhava para o seu amado, lembrou-se da octogenária estranha. Bem sempre me chamaram estranha, não é? Se for assim quando for velha acho que vai ser bom… Mal sabia ela o que, sem querer, estava a desejar para si.
Sírio…
James, meu amor. Eu ainda não acredito nisto, eu nem sei o que dizer, eu só quero que saibas que, enfim, estou e estarei sempre aqui, juntos vamos superar tudo o que vier. Juntos, sempre!
Nunca duvidei, Sinfonia. Pensei em ti todo o tempo…
E eu. Nem sabes como me custou tentar dormir sem ti a meu lado…
Dormir?
Ah! – Ela sorria como se eles não passassem de um par de jovens normal que agora começa a descobrir o verdadeiro amor.
Sírio?
Sim?
Se eu por acaso…
Santiago, por favor…
Sírio, se eu por acaso morrer, eu… Não, Sírio, eu não tenho medo. Desde que tenha a tua luz como salvaguarda não tenho medo de fechar os olhos.
Nunca vais morrer para mim. És eu e eu sou tu, estarás, assim, vivo em mim. Somos tão líricos, não é? Mas ainda bem que encaramos tudo com naturalidade, meu querido.
Tens razão. Só assim somos felizes, Estrelita.
É.
Ah, temos que ir fazer o Caminho de Santiago, ouvi falar que se aprendem imensos ensinamentos úteis ao dia-a-dia e que o roteiro é muito interessante, seria deveras apaixonante…
Ai, podes ter a certeza, também já li sobre isso e, não só porque é do MEU caminho que se trata, mas porque seria enriquecedor em termos culturais! Mas…que raio?! O meu caminho és tu!
Eu sei, mas esse caminho só há um fiel a faze-lo…Sabes, hoje tive um pesadelo, meio sonho, muito estranho, como que uma premonição. Tenho que te contar mais tarde, não resisto.
E eu não te resisto a ti, linda!
Estou ansiosa para que me demonstres isso, Santiago, O Santo…
O olhar de ambos era caçador e divertido, alimentando-se da boa disposição um do outro, quase que revelando uma vontade de se terem ali mesmo. Mas era hora de regressar à vida quotidiana e esperar que o Sol lhes continuasse a iluminar o caminho. Esperar que Sol iluminasse o Caminho de Santiago.
Amo-te? – Perguntou, trocista, James.
Amas. – Disse Sírio por entre um beijo cheio de saudade.
E, envolvendo-a num abraço forte, como se fosse ela quem precisasse de protecção, o Deus sorri à sua Estrela com a força do Universo e esta envolve-o com a omnipotência da sua devoção.
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