Era uma vez… Um dia de Verão soalheiro. O calor sentia-se na pele nua e os olhos semicerravam-se na busca de uma paisagem para lá da viatura. A viatura de grande dimensão deslocava-se através de carris. Duas figuras, uma masculina e outra feminina, encontravam-se naquele lugar para dar continuidade a um passado. A vida é um ciclo e as emoções do passado antecedem e repetem-se por vezes no futuro. Ele, de cabelos pretos e olhos verdes, procurava com as suas mãos enegrecidas de tinta um objecto de emissor de música. O seu olhar contava uma história antiga, quase impossível, não fosse a morte quase levar o seu pai. Quase. A doença debilitou-o e a sua mobilidade e memória aos poucos se desvaneceram. A mãe do rapaz ensinou-o desde pequeno que as coisas mais simples são as melhores, mulher de coragem e arte, toma todos os dias conta do marido e juntos vivem o dia como se fosse o último. Partilham as suas actividades, enquanto ela pinta, ele sussurra-lhe as suas sinfonias cantantes. Quanto a tarde chega, ele pega na mão dela e juntos passeiam pelo cais, em memória dos velhos tempos. O vento e a maresia recordam-lhe todas as memórias de uma vida agarrada ao segundo. E para sempre aquelas duas almas vaguearão. Ele pode até ser grisalho e ela conter rugas, mas amar-se-ão de mãos dadas, unidos para sempre.
A rapariga no comboio, também foi fruto de um amor progressivo. A sua mãe deixou-se apaixonar por um rapaz de matemáticas que continha segredos, um deles era o seu amor aos animais. Assim, viverão numa quinta, ela médica, ele veterinário. Juntos correm por um campo de trigo, ela de cabelos compridos aloirados pelo sol e ele vestindo camisa de fazenda no corpo. A vida dá algumas voltas e os amores do passado transformam-se em amizades.
A vida dá-nos uma segunda oportunidade seja ela a vida ou uma oportunidade de recomeçar. Por vezes é difícil encontrar uma nova via que corra sobre os carris. Por vezes, o coração bate devagarinho e a morte surge, mas um grande amor pode afugentar as maldades. Uma nova vida traz a esperança. Nem sempre o final é dramático. Porque não existe fim. A confiança e a aventura numa nova pessoa podem ser fundamentais para um novo começo.
Não interessam os nomes, pois muitos deles não representam quem somos.
As pessoas é que fazem os nomes, recordo.
As pessoas já o leitor conhece, basta juntar as peças e formar um puzzle e imaginar novos acontecimentos.
Os dois jovens conheciam-se há muito, desde pequenos. E juntos seguiam para um novo ciclo, amedrontados e confiantes.
Quanto o vento lhes bate na cara recordam quem são e o seu passado.
Tudo num simples comboio, entre paragens e destinos se conta uma história sem final.
O Vinte E Três
Há 15 anos
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