sexta-feira, 18 de abril de 2008

Recordações


O dia seguinte acabara de nascer e Sol acordara com a sua luz a bater-lhe nos vidros da varanda. Um passarinho empoleirado na árvore, que crescia lado a lado à casa, cantava uma melodia tão harmoniosa, que desde que Sol se mudara de casa nunca mais usara despertador. O relógio marcava as oito horas da manhã e Sol arranjou-se, pegou numa pilha de livros e dirigiu-se para a esplanada mais perto para tomar o seu café e fotografar o acordar de um dia solarengo, pois a Primavera tinha finalmente chegado para ficar.

Sol caminhava pelas ruas com uma pilha de livros nos braços, vestindo um vestido de renda branco e calçando umas sandálias de couro sorria a todos os espaços da calçada. Os seus cabelos compridos e alisados na noite anterior brilhavam e dançavam na redonda cara de Sol. Acordara cheia de vitalidade e com vontade de escrever mais um conto para crianças. Mas as frequências na faculdade precisam de ser preparadas e uma das nossas heroínas carregada de livros dirige-se para a biblioteca mais próxima.

Á entrada da biblioteca estavam cerca de 25 pessoas em fila para registrarem livros e Sol fazia um esforço para cortar mato e conseguir sentar-se numa mesinha sossegada. Mas como toda a gente tem pressa e impaciência, Sol desequilibra-se e a sua pilha de livros chega a cheirar e beijar o chão da biblioteca... Até que uma mão masculina e de grande a ajuda empilha de novo os livros e quando Sol se levanta e olha para a pessoa em causa...

-Teresa? Maria? - questionou o rapaz. Na verdade quando Sol era mais nova tratavam-na por Maria.

-Sim sou eu... José? Zé?

-Sim. Recebeste...???

-Sim recebi. Como é que soubeste a minha morada?

-Depois de saires da aldeia... Eu escrevi-te durante um ano. E depois soube que a morada para onde escrevia não era real. E... procurei-te durante anos. Agora estou em Lisboa a estudar engenharia...

-Ah! Ainda queres construir a tua casa!

(Riram-se deliciosamente).

-A nossa casa...

-Bem tenho de ir estudar...

-Ah, eu tenho que sair agora para uma aula da faculdade. Tens aqui o meu contacto, se me quiseres ligar. Continuas a mesma menina usando ganchos em forma de corações, vestidos de renda, uma face corada e o que fizeste aos caracóis?- e segurando-lhe a face rosada, ternuramente a beija.

Sentada na sua solitária mesa, Sol tinha aberto o livro de anatomia e olhando em frente pensava na figura de José... Na altura em que ele lhe contava histórias sobre a aldeia e a levava a andar de trenó quando nevava.

Sorria e recordava agora mais velho o rapaz que a tinha ensinado a olhar o céu e a imaginar a forma das nuvens.

Aquela figura de altura média vestindo uma camisa de linho verde e aqueles olhos castanhos que tocavam nos seus cor de mel...

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