sexta-feira, 18 de abril de 2008

Como uma chama adormecida

Já me esqueci do meu nome.
Quem sou afinal?
Para além de uma incógnita por isolar e descobrir, tal como numa equação?
Equação esta cuja solução seria, não tenho dúvidas, um número irreal.
Raiz quadrada de -1...
Ajuda-me!
E assim Sírio passou os últimos momentos de consciência, antes de entrar no sono, pensando na paz de quando caminhou à beira rio, nessa tarde, vendo os restos de barcos, que um dia serviram grandes pescadores, flutuando à superfície da maré lenta e calma. Tal como eles, ela também se sentia leve e a ondular ao ritmo do mundo, a sua maré, e ao ritmo da respiração de James, a sua noite.
Tinha estado no café com ele, falando de inúmeros temas, cada um sorrindo mais que o outro, cada um encantando mais que o outro. Porém, a fobia de estar fechada num café tomou conta dela e teve que sair por breves momentos. James percebeu que algo não estava bem e, revelando-se, convidou-a para irem passear à beira rio e observarem a beleza das águas. O seu gelo interior, acumulado ao longo de vários anos, derretera-se completamente face àquele olhar intenso e àquele sorriso divinal que ele lhe ofereceu enquanto lhe tirava uma madeixa de cabelo afogueado da frente da cara.
Juntos percorreram uma distância considerável da marina mas, desta vez, em silêncio. Caladas as vozes, já cansadas, limitaram-se a escutar os pensamentos um do outro. Da mente dele emanavam composições melódicas, poesias e saltos na neve. Na alma dela surgia uma pintura, estranha e complexa, banhada com tons dourados, pretos e arroxeados, sublime.
Sabes, Sirio, adorava saber o teu verdadeiro nome. Já tentei saber por pessoas que te conheceram, mas nada. Todos eles me dizem coisas como Nuvem, Pétala, Lua, Cristal e fico cada vez mais curioso. Diz-me, quebra esta tormenta em mim, por favor. Eu confesso, não aguento chamar-te Sirio, não vejo me ti a estrela mais brilhante do céu...
Ela olhou-o, serenamente, tentando decifrar cada palavra que ele dissera. Era um poeta, sem dúvida, cada frase pura inspiração, cada fonema uma arte. No entanto, quando ele fizera a referência ao seu Nome, ela ficara apreensiva. Aquele era o nome mais bonito que lhe tiveram dado na vida, como podia ele não gostar? Será que ela pensara demais e ele, afinal, não nutria um sentimento mais transcendente por ela além de amizade, ao afirmar que ela não era a estrela mais brilhante? Estaria apenas a querer tornar físico um sonho?
De repente, começara a chover fortemente e os seus pensamentos esfumaram-se. Com um movimento rápido e perspicaz, ele cobriu-a com o seu braço e casaco e correram para uma espécie de telheiro com heras a subir pelas colunas que o suportavam. Rindo dos cabelos desgrenhados um do outro, sentaram-se à espera que a chuva terminasse. Como ele estava belo com o cabelo molhado e desalinhado emoldurando-lhe as faces perfeitas. Como o olhar dela ganhava nova vida com as gotas de chuva.
E ela sentiu-o. Tão discreto como o peso de uma pluma, o toque dos seus lábios lançou uma onda de calor intenso por todo o corpo dela. Como que enfraquecida pela força do beijo celeste, ela deixou-se envolver pelo abraço seguro e confiante dele. Era a primeira vez que se deixava descansar e confiava o seu suporte a outra pessoa que não ela própria. Naquele momento pôde jurar que era Vénus e ele Marte, um amor transcendente e digno de uma lenda.
Envolvendo a cintura dela e encostando-a firmemente a si, ele deixou que o seu desejo falasse mais alto e a sua paixão a envolvesse ternamente. Ela acariciou a curta barba de três dias que se estava a afirmar nos traços dele e, enquanto deixou que ele lhe visse a entrega no olhar, o sonho, o afecto, ela pegou na mão dele e correu. Correram pela chuva até à casa que ficava mais perto, a dele.
Ao chegarem à entrada, sentiram que não se poderiam separar mais, tanto física como espiritualmente. E ele, pensando nas chamas da sua lareira quente, convidou-a a entrar e ela foi, pois a ele e ao seu fogo ela pertencia.
Tempo depois, já ele repousava a sua cascata de cabelos cor de noite no colo dela, secos. Ela afagava-a e cantava uma melodia que lhe viera à cabeça enquanto a lenha ardia à sua frente. Tinham rido e contado histórias, debatido temas e feito jogos de inteligência. E, no meio de tudo, ele apenas lhe dera um terno beijo no pescoço, antes de adormecer. Ela sorrira porque sentindo-se os dois loucos por se terem, mantiveram a razão acordada e, mais que isso, o respeito e a responsabilidade. Os dois figuravam entrelaçados e cobertos por uma manta quente e, ao lado, duas canecas de chocolate quente vazias acompanhavam a cena. Melhor que as suas pinturas era esta imagem que, além de real, era perfeita.
Deus da Noite, dorme em paz. Sou tua...
E eu teu, Sinfonia.
A quilómetros de distância, Sol derramava lágrimas sobre as lembranças que guardara de José. Agora, mais do que nunca, tinha medo do futuro, mas sentia uma chama de amor que, não sendo sua, mas sim de uma estrela, acalentava-lhe o coração e trazia-lhe esperança.

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