-Stones taught me to fly… – cantarolava uma pequena figura que num dia nublado, cismava pela falta de amor à vida. Entrou pelo comboio. Sentou-se no seu lugar preferido, de onde podia ver as luzes da noite, o vidro estava embaciado e com a mão afastou o vapor de água que se acumulou na superfície da janela. De quem era aquele reflexo? Afinal, como podia ser dela sem o ser.
Desde pequena que aprendeu a usar a imaginação para se sentir confortável e inventar inúmeras situações amorosas e carinhosas. Mais uma vez, imaginava o futuro. Nunca se prendera ao amor, nunca deixava que ele a comandasse. Usava mais a razão e os seus objectivos para tudo. Vivia sempre com todas as suas acções presentes e foram raras as paixões que se cruzaram na sua vida. Até a dançar era ela que comandava e magicava os passos de dança. A vida sem cor e sem surpresas era uma constante da sua a vida.
Se ao menos visse hoje a Sírio… Talvez pudéssemos partilhar estes sentimentos e pintar numa tela uma amizade. Também estou sempre sozinha. Aliás só sei ser sozinha! Desde que me mudei de cidade só conheci a senhoria e a senhora da pastelaria da esquina. – pensava a futura médica.
Ao mesmo tempo e noutro lugar, mais propriamente em sua casa, Sírio, pintava com as suas tintas o retrato de Sol… Tinha gostado dela, daquela sua inocência e ao mesmo tempo infelicidade. Além, disso quando esta desabafou a amiga não fugiu como outras pessoas. Decidida pegou numas moedas e no pente e saiu de casa. Não tinha muito tempo até apanhar o comboio e por isso, penteava-se na rua como se o fizesse em frente a um espelho. A sua personalidade característica tinha na habituado a ser diferente e a não encarar com seriedade as opiniões que as pessoas tinham a seu respeito.
Ainda tenho tinta nas mãos! Não admira que as pessoas olhem para mim. – imaginava e sorria a pintora. Afinal rir-se de ela própria era tão comum e natural que o fazia por instinto.
Conseguiu chegar à estação a tempo do comboio e entrou naturalmente, pois sabia que onde se queria sentar, estaria lá alguém que ela aguardava. Mal a viu abraçou-a, pareceu-lhe estranho como conseguira com poucos minutos estabelecer assim uma relação com uma estrela, como ela lhe baptizara.
Decidiram sair do comboio e rumo a um café, sentaram-se numa pacata esplanada. Enquanto saboreavam um café, conversaram durante horas sobre si, sobre o mundo, sobre tu o que eram… a sua essência. Trocaram contactos e combinaram ir almoçar juntas.
Passados sete dias… Encontraram-se as duas cúmplices na biblioteca, ambas para estudar, sussurravam brincadeiras e os olhos da Sírio riam-se enquanto, as bochechas da Sol formavam umas doces covinhas.
Ambas ficaram com o queixo caído, quando passa por elas, o “Pão” e juntamente e em conversa com um amigo da Sírio… Cumprimentaram as raparigas e juntaram-se a elas na mesa de estudo. A Teresa, nome que consta no BI, sentindo-se um pouco sonolenta, desaparece da mesa de estudo com o amigo da Sírio e esgueira-se para o bar da biblioteca. Conversou, enquanto bebia um chá de tília, com o Francisco, a quem apelidava de MC Matemática, pois pelo que lhe pareceu, o rapaz era um craque em matemática, um pequeno Einstein.
Na biblioteca, os dois conhecidos trocavam olhares e pela primeira vez a Sírio não controlava aquilo que começava a sentir… Conversaram durante imenso tempo baixinho, sobre hobbies, animais, música, filmes e os olhares de ambos tocavam-se magicamente…
-Não queres ir tomar um café, um dia destes? – falou baixinho o Tiago, que em inglês significa James, segundo a Bíblia, mas que interessa esse livro se Sírio só tinha uma religião, a dela.
- Eu não posso… – Respondeu a rapariga que estava a dar ouvidos à razão que lhe indicava que tinha que se concentrar na pintura.
Já em casa e na sua solarenga varanda, com um livro aberto entre as pernas onde se visionava anatomia humana, estava Sol, bebendo um capuchino, saboreando os últimos raios de sol do dia e trauteando uma letra de uma música. Pega no telefone e liga um número que já tinha decorado. Do outro lado da linha, atende a Sírio… que estava nesse momento a pintar…
O Vinte E Três
Há 15 anos
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