sábado, 27 de outubro de 2007

Ode Triunfal: O Lobo


Nos primórdios da sua existência, O Lobo aprendeu o amor dos seus progenitores.
No entanto, cresceu aprendendo a solidão e o sacrifício.
Brincou, caiu, correu, descobriu, subiu, escondeu, zangou, preocupou, alegrou...
Mas a razão solitária que guiou O Lobo sempre teve um objectivo: uivar à luz da Lua no monte mais alto, na noite mais estrelada, uma melodia de triunfo e de compaixão.
O espirito de lutador que sempre O acompanhou foi crucial. Graças à força de vontade ultrapassou tanta dor, perda, frustração, traição...

Inocente, por vezes, O Lobo foi guiado por raposas matreiras. Embrenhara-se de corpo e alma na sua influência e, quando finalmente abria os olhos para a luz da sua escuridão, destapava o lençol encarnado da traição calculista e, apesar de tudo, nenhuma lágrima corria na sua face. E hoje recorda as raposas com compaixão, pois, no fundo, cada um segue o rumo que segue e cada um torna-se aquilo que se torna. Hoje, O Lobo vê aquilo que as suas raposas são...


Mais tarde, mais crescido, O Lobo ganhara autonomia, descobrira o lado negro da vida e elaborara a sua razão nesse barro puro e estrelado. Estudara o silêncio do pensamento e acabara descobrindo a sinfonia adormecida em si. O Lobo mudara e tornara-se mais forte que o muro mais alto. O seu caminho era iluminado pela chama do gelo nórdico e pela lenda d'O Perfeito que adormecera para lá do intocável. Esse Perfeito que O Lobo ambiciona acordar e tornar parte de si com o poder na sua devoção mais em bruto...


Tão forte que era O Lobo, tão alto que estava!...


Tão grande foi a sua queda.

Na doce ignorância, acabou atrelado a algo que nunca fizera parte da sua essência. Algo novo aparecera na sua visão e na sua alma. Primeiro estranhou, despois entranhou. Entranhou tanto que apenas a própria hipocrisia arancou essa praga de si, finalmente!


O Lobo caiu e voltou a levantar-se, tal como fizera nos promórdios da sua existência. No entanto, hoje sabe que é ignorante, em comparação à escala cósmica. Hoje olha à sua volta e avalia. Só depois se deixa conquistar aos poucos. A traição moldou O Lobo, o medo da perda dos diamantes raros moldam-nO agora. Agora, leva na sua alma um pequeno punhado de diamantes únicos, joias mais belas e ricas que a Aurora Crepuscular...


A melodia do uivo interminável que O Lobo agora solta do cimo do monte mais alto, a luz ofuscante da Lua que se viu livre das núvens para conceber a sua graça à noite, os diamanates que O acompanham e cintilam de emoção ante o triunfo dos sentimentos em redor, as raposas que admiram a grandiosidade da paisagem e o seu sentido tão bem contruído que nunca entenderão...

A memória d'O Lobo caminhante observador que modifica o mundo à sua passagem, a sua intervenção para o equilibrio natural tão bem mantido pela sua Mãe Noite e a sua devoção pela vida e pela importância das pequenas coisas que se movem na sua demanda incançável...


É O Lobo...

____________


Dedico esta Ode Triunfal aos que merecem e têm a certeza que merecem.
Dedico-a também àqueles que não merecem e têm a certeza que não merecem.


Com o sentimento mais sincero, puro e devoto,

Para as minhas irmãzinhas,


D'O Lobo que Eu Sou...

1 comentário:

Cláudia disse...

Farejei-te, encontrei-te, mordisquei-te, os teus pelos de lobo me aqueceram, assim como dois lobos irmãos brincam...
Todos os dias agradeço as pedras do meu caminho e todas as raposas pois foram elas que me mostraram o mundo, a vitória, a derrota e todos os antónimos que a vida nos tem demonstrado.
O mundo gira e gira e nós temos de correr com ele mas sempre abraças que nem irmãs!