A multidão atarefada choca entre si num frenesim sem limites, concentrada num único objectivo: satisfazer cada desejo.
Enquanto uns procuram a saída, outros apenas querem entrar e explorar as luzes convidativas daquele espaço.
Uns levam sacos, muitos sacos. Algumas coisas acabam por cair. Poucas delas são levadas por engano.
Outros andam como que a passear, vão desfrutando o ar carregado daquele espaço fechado como quem respira a brisa marítima ao amanhecer.
As prateleiras estão cheias de produtos prontos para consumo, tão apetecíveis que são.
O consumismo corre, voa como um bando de pássaros velozes e indistinguíveis entre si.
Este mesmo embrenha-se nos espíritos mais frágeis e bate à porta dos que não podem dele beber...
Tenho dinheiro! Algum dinheiro até.
Quero, tenho que comprar!
Mas está tanto calor aqui dentro.
Não entendo, não corre uma única brisa de ar “respirável”!
Olho para o lado e estão três tipos a fumar, olho para a rua e são só filas de carros para estacionar nos parques subterrâneos!
Que caos!
No meio disto, percebo que sou um homem de 54 anos que já passou há muito pelo seu apogeu, tal como muitos outros neste Centro Comercial.
E, tal como muitos outros, tenta gastar o parco ordenado numa última frágil chama de emoção na sua vida...
Lá está o motivo, finalmente alcanço a pequena divisão na qual está a efemeridade daquilo que procuro. Depois de muitos encontrões consegui.
Enfim, entro.
- Olhe, por favor. Boa tarde, eu...
- Espere um segundo, por favor, estes senhores estão à frente.
- Ok, ok...
Tento controlar a vontade de me por a andar para a rua e apanhar ar!
Bom, não será por ter um casalinho à minha frente que vou perder a oportunidade de as comprar. Estão bonitas, devem ter vindo há pouco tempo, e há imensas.
Apenas não entendo a extrema dificuldade de ter que atravessar toda uma acumulação de gente para chegar à florista!
Caramba, é hoje!
Enquanto estou na fila, ponho-me a pensar. Pois, que mais posso fazer?!
Quando me casei tinha já passado dos trinta, porém vivi anos felizes com a minha mulher.
Até que um dia ela foi sair com as amigas durante um fim-de-semana.
Nunca mais a vi.
Todavia, um dia uma das amigas, com a consciência em fogo, decidiu esclarecer-me.
Resumindo, ela tinha conhecido alguém mais...interessante.
No fim de contas, eu sempre soubera qual o problema que nos atingiu como um tiro nas costas dado por um falso melhor amigo.
Mas, neste caso, o tiro foi dado a sangue frio pela pessoa que partilhara os meus lençóis anos a fio.
Infelizmente, os lençóis passaram a ser apenas lençóis, nada mais cobriram a não ser duas pessoas partilhando horas de sono.
Ou seja...tive o azar de ser alvo de um problema que me roubou a possibilidade de lhe dar mais do que amor.
E, meu falso anjo, fugiste para os braços de outro que te podia satisfazer. Quais amigas? Qual fim-de-semana?... Resto da vida!
Não reparei que já tinha chegado a minha vez, tão absorto estava na minha desgraça.
Avancei para a florista e pedi um ramo simples, mas fascinante, de rosas vermelhas.
Rosas vermelhas, tal como a cor da camisa que ela trazia quando a conheci.
Foi no emprego, num daqueles dias iguais aos de ontem e aos de amanhã.
Mas ela apareceu, como que respondendo à minha prece.
Era nova na empresa.
Não só nova na empresa, também nova demais para mim.
Pensei eu.
Confesso que sempre fui um Casanova, sempre me elogiaram a capacidade de permanecer intacto à passagem do tempo..
Mas desde que me acontecera “aquilo”, senti necessidade de me afastar do sexo oposto.
Contudo, a atracção foi mútua e tivemos sorte de partilhar os horários e possuir moradas próximas.
Parece que tinha reencontrado uma luz! E encontrei mesmo.
Gosto quando diz que teve muita sorte por ter nascido vinte e muitos anos mais tarde que eu!
É muito bonita e sei que não me atrai só a mim.
Mas fui eu o seu escolhido.
Faz-me sorrir e dá objectivos à minha vida perdida já há uns anos...
E resolvi que chegou a hora de a tornar minha, mesmo minha, mais minha ainda.
Será hoje à noite, quando apenas as luzes das velas nos fizerem companhia.
O anel, cuja caixinha vou revolvendo enquanto a florista prepara o singelo ramo, está repleto de amor e simboliza a minha alma.
Amor e a minha alma, nada mais te posso dar, querida.
Tu sabes.
Tu continuas a meu lado.
Tu amas-me...
Um aperto.
Outro, mais leve.
Não ligo, dores ligeiras acontecem por vezes...
Outro aperto, mais forte agora.
Não passa, não alivia.
Tento disfarçar a aflição que começa a trepar por mim.
Agarro no bonito ramo e procuro o respectivo pagamento.
Mais forte agora, ainda mais forte o aperto.
Não resisto, levo a mão ao peito.
Ansiedade, nervosismo, suores frios abraçam-me e não me largam.
Pânico patente nos meus olhos.
O ritmo cardíaco irregular, cada vez mais irregular.
Quem está à volta apercebe-se que algo está terrivelmente mal.
Meu Deus!
Não aguento, este aperto é tão...
Sinto-me à roda.
As pessoas que correm pelos corredores dão-me dores de cabeça.
As luzes das montras provocam-me arrepios.
Os rostos petrificados invadem-me de puro terror.
Levo a outra mão ao peito num gesto de total reconhecimento.
A dor intensifica-se exponencialmente, tal como o meu pavor em estado bruto.
As rosas caem, uma por uma, enquanto me rendo ao aperto incessante.
A força falha-me.
A consciência falha-me.
O tempo falha-me.
Tudo desvanece.
A última coisa que vejo, enquanto a percepção se vai apagando, são as rosas caídas a meu lado, tão efémeras quanto um último suspiro de vida...
Ansiosa por chegar a casa, para jantar com ele e para apagar a luz das velas ternamente envolvida no calor do seu amado, sai mais cedo do emprego.
Ele hoje não apareceu. Que terá preparado desta vez?
Passadas algumas horas, as velas já tinham derretido, os pavios já tinham sido apagados, friamente apagados pelas lágrimas de uma promessa por desvendar...
O Vinte E Três
Há 15 anos
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