Hoje foi uma viúva, já de há muitos anos, que até ao fim dos seus dias amou o seu marido incondicionalmente, segundo comentavam os familiares.
Estes estão todos de negro, de lenços na mão e lágrimas nas faces.
Enquanto espero para enterrar o seu caixão na cova profunda, penso: como foi ela capaz de aguentar tantos anos longe de quem mais amava?
Sim, porque sei que muitos dos que choram aqui neste momento nunca lhe foram queridos ou fizeram alguma coisa para aliviar a dor.
Já sei como são as famílias, a hipocrisia e o interesse...

Parado, com a pá na mão, observo como, mesmo jazendo sem vida, o seu rosto conserva a expressão de saudade e dedicação.
Será que ele também está enterrado aqui? - Penso.
Costumo perguntar-me muitas vezes se os que partem estarão à nossa espera do outro lado...
Será que esta mulher vai reencontrar o marido e voltar a abraçá-lo? - Pergunto-me.
Como eu gostava que isso fosse verdade...
Como eu quero que isso se concretize...
O caixão foi fechado, agora é colocado na fossa enquanto eu vou atirando a terra que vai preenchendo o espaço lá dentro.
Velhas choram, homens fumam, crianças berram e brincam por entre as campas e eu vejo-os lançarem um último olhar à última morada da viúva.
Se sentem alguma saudade não sei dizer, mas sei que se afastam a passo lento, enquanto a conversa vai convergindo para a banalidade da temperatura e do desemprego.
Cá estou eu olhando a campa de alguém que não conheci e da qual apenas posso fazer especulações.
Tal como todos os corpos que enterro, sejam eles inteiros, belos, fragmentos ou desfigurações, todos tiveram uma alma, todos viveram uma história todos amaram ou odiaram.
No fundo, todos foram alguém que aprendeu e cometeu erros.
À medida que admiro a grandiosidade do cemitério e prendo o olhar em cada campa, dou conta de que gostava de conhecer todos os seus hóspedes.
Sim, porque são hóspedes, não habitam lá, apenas por lá passam, a alma, essa está muito distante já.
Sou um coveiro, que um dia algum outro coveiro enterrará.
Não tenho família.
Vivo numa pequena casa encostada ao cemitério e falo todas as noites com as almas que enterro.
Elas dizem-me que a morte é apenas uma transição, o resto é...o resto!
Mas não acredito nelas.
Não acredito.
Sou a porta de transição entre a morte e o resto...Enterro os que amaram e amam para sempre.
Tal como eles amei.
Amei e enterrei quem amei.
Amo, ainda.
Por isso, finalmente, entendo como a viúva que enterrei hoje aguentou.
Amo...
E isso faz-me viver.
Sem comentários:
Enviar um comentário