Saía de casa todos os dias e enfrentava o mundo.
Dizia Bom Dia! a toda a gente conhecida, sorria para os desconhecidos com caras amigáveis e passava pelos outros.
Metia-me no carro e percorria as ruas da vila até chegar à auto-estrada.
Cumpria sempre as regras do código da estrada, dava sempre prioridade aos outros, mesmo que tivesse que ficar à espera mais tempo.
Nunca fui de pressas nem de carregar no acelerador, parava sempre ao sinal laranja e nas passadeiras.
O meu filho sempre foi na cadeirinha de bebé, quando o era, e mais tarde ia sempre com o cinto posto.
Nunca bebi antes de conduzir e tentei sempre não conduzir até muito tarde.
Quando chegava ao trabalho, punha o meu melhor sorriso - o meu - e lá me dirigia para aquele balcão de atendimento ao cidadão.
Aí ficava desde as 9h da manhã até às 19h, apenas parava para almoçar.
Enquanto cumpria as minhas tarefas, tentava sempre ser justa e atenciosa para com as pessoas.
Por vezes era difícil, pois a vida nem sempre corre bem e uns acabam por descarregar em cima dos outros...
Contudo, sempre soube que tivera nascido para ser simpática e ajudar os outros.
Quando regressava, pensava em ficar com o carro ao pé de casa, mas dirigia-me logo ao primeiro lugar vago que encontrasse.
Abria a porta do andar e corria para o meu filho, abraçava-o e dizia que o amava muito.
Jantávamos juntos, falávamos das experiências que tivéramos ao longo do dia e riamos ou chorávamos, conforme o tema das notícias do jornal das 20h.
Em seguida, como ele já tinha feito os trabalhos de casa, íamo-nos sentar no sofá, ou no chão, e cantávamos, tocávamos, pois ele tem muito talento para a música, ao mesmo tempo que debatíamos temas filosóficos ou fazíamos jogos lógicos um com o outro.
Depois, quando chegavam as 23h, ele ia-se deitar, pois no dia a seguir a rotina seria a mesma.
Eu dirigia-me com ele ao seu quarto e, antes de dizer Boa Noite! Amo-te filho... nomeávamos as nossas constelações favoritas ou, caso não as pudéssemos ver, apreciávamos em silêncio a vida nocturna da zona.
Ele deitava-se, eu apagava a luz e ficava a escutar à porta durante tempo incontável, ouvindo a sua respiração calma e o seu revolver dentro dos lençóis.
De seguida, era tempo de eu própria ir descansar.
Aqui repetia o ritual que tivera feito com o meu filho, mas de forma diferente.
Todos os dias derramava lágrimas infinitas pela Estrela do meu Amor.
Todos os dias sentia uma saudade eterna daquele homem perfeito que me amava tanto e ao filho que lhe tivera dado.
Todas as noites sentia a sua falta a meu lado, para me abraçar, acolher no seu calor e murmurar que tudo iria ficar bem...
Mas ele partira, sem uma palavra sequer, sem que pudesse dizer mais uma vez Amo-te, meu Amor! ou Adeus... ...
Partira numa noite de nevoeiro serrado, a meu lado.
Partira com um longo suspiro inaudível, a meu lado.
Partira para a vida eterna que merece, a meu lado.
Ele partiu, mas eu fiquei mais o meu filho.
Porque ele é uma alma musical que tem um futuro pela frente e eu só quero que ele se realize.
Sinto que fora essa a minha única tarefa, depois de perder o Amor da minha vida.
Meu filho!...
Traí a minha única tarefa! Porquê?!
Um dia, acordara estonteada de um sonho com o meu Amor.
Estava tão abalada que me esqueci de dizer Amo-te, meu filho! antes de sair de casa nessa manhã.
Estava tão ansiosa que passei o sinal laranja.
Estava tão preocupada que estive distraída no emprego o dia todo.
Estava tão constrangida que fiz uma ultrapassagem indevida.
Estava tão mal que dei por mim às voltas pela cidade, sem rumo, até altas horas da noite.
Estava tão absorta que não dei conta quando aquele camião do lixo se atravessou na minha frente...
Estava já ao pé do meu Amor quando me olhava lá do alto e apenas pensava que nunca mais voltaria a olhar as estrelas com o meu filho, nunca mais sentiria o seu cheiro, nunca mais ouviria a sua voz, nunca mais tocaria com ele, nunca mais falaria com ele, nunca mais o poderia proteger e ajudar...
Aquele menino, sem jantar, sozinho em casa às 02,23h, sem saber onde a mãe estava, às escuras no quarto com a guitarra na mão, chorando, olhando a constelação que a mãe mais gostava...
O Vinte E Três
Há 15 anos
2 comentários:
Oh que lindo.
não há palavras.
bjs
porque será que as coisas tristes são sempre as mais bonitas?...
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