Argh, é hoje!!
Já nem me aguento de pé, porra...
Estou tonta, alucinada, sinto que a percepção da realidade se pode dissipar a qualquer momento!
Mas nunca mais chega esse momento!
E...será que vou dar conta?
Não tenho medo da morte, já a enganei tempo demais...
Isto podia ter acontecido há anos, mas não, e acreditei que estava livre!
Inocente idiota, a ciência tem sempre razão, os milagres não existem.
É hoje!
E agora cá estou eu, acordada às tantas da noite, só na casa de banho do rés-do-chão.
Lá em cima dormem os miúdos, mal sabem que é hoje!
Não os quero deixar, não quero, sempre foi esse o meu único medo...
Mas também nunca quis que vivessem anos de tratamentos dolorosos e me vissem acabar desta mesma forma.
Por isso, preferi esconder tudo e viver normalmente, poupá-los, em vez de ter assumido e ter arriscado passar os últimos meses internada ou incapacitada e vê-los sofrer a cada dia...
Esse dia é hoje!
Oh, como não me arrependo, porque os poupei à dor e à sensação de impotência.
Mas essa dor sofro-a eu agora, e tenho-a sofrido todos os dias.
O medo de que fosse ontem, anteontem, há semanas tem me consumido todas as noites antes de fechar os olhos e adormecer.
Mas sinto que é hoje!
Como é bom saber que este sofrimento vai acabar...
Desde que senti o primeiro sintoma que a minha cabeça começou logo a trabalhar.
Que desespero possui o meu ser sempre que a dor vêm mais forte que ontem e, então, sei que a doença avança!
E fico parada a vê-la ganhar a batalha contra o meu corpo.
Há tempo que me rendi e sei que vai ganhar a guerra, é hoje!
Faço uma força enorme e encontro-me ao lavatório para me manter de pé e consciente.
Algo me impele para fechar os olhos e cair para o chão, mas, inconscientemente, luto contra um desfecho já certo.
Olho-me ao espelho, constato que os meus olhos sempre foram daquele castanho e, mais uma vez, são do mesmo castanho, mas um castanho assustado e a desvanecer...
A dor aumenta a cada segundo e o suor escorre pelo meu corpo.
O pânico começa a tomar conta de mim, contra a minha expectativa!
Não me consigo controlar mais, só me apetece gritar!
Por favor, façam esta dor parar, não aguento mais, só quero a minha velha vida de volta!
Quero voltar a sentir a leveza no espírito e não ter medo de adormecer e não acordar mais!
É hoje!
Oh não, alguém acordou e desce as escadas!
Será que fiz barulho?
De repente percebo que não resisti mais e mandei um grito bestial!
É hoje!
E as cartas estão na mesa, já só tenho mais uma mão possível de jogar: a revelação.
Mãe!!!! O que se passa, mãe!!!! Paiiii!!!! A mãe está a morrer!!!
E eu não conseguia parar de me contorcer e gritar de dor...
A Mãe está a morrer!!! Pai!!! Mãe vá lá Mãe!!! Ajuda-me Paiii!!!
Meu filho, não chores, daqui a muitos anos encontrar-nos-emos de novo, no céu, e lá explicar-te-ei porque choras hoje...
Sinto-me acalmar, gradualmente.
Será agora?
Aaaammm...o.....rr!!! Ammmo...r....
Meu amor, já não te consigo ouvir mais, só vejo o teu olhar, a tua agitação, o teu pânico.
Pena que a tua última visão de mim seja esta, pena que a última imagem que terei de ti seja de pavor.
Vou perdendo a percepção da realidade aos poucos, já nem vejo nada, já não consigo pensar e sinto arrepios e calafrios pelo corpo todo, como se a alma estivesse a vaporizar-se.
É assim que se morre?
Tudo tem um preço...
É agora!
Encontramo-nos dentro de muitos anos, espero.
Amo-vos...
O Vinte E Três
Há 15 anos
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