Vazia e ouca são adjectivos que me qualificariam bem, ou melhor mal, devido à negatividade destes. Sou apenas mais uma folha de uma resma de papel branca e lisa, sem objectivos nem problemas nem certezas nem vontades, um roll de nem's que me caracterizam como mais uma carta de um baralho sem trunfos.
Agora que tenho a cabeça vazia poderia escrever uma estória, um conto, uma série de criançadas. Mas nem para isso a minha passividade daria. Sei bem que a minha vida vai sentada num comboio à minha frente e que eu estou desde lado à espera que este parta.
Neste ar pensativo, cismado, prendo os meus cabelos e pintos os meus olhos de negro.
Quem diria que estaria vazia, sem palavras para usar, sem comentários para fazer e sem retratos para tirar.
Há dias em que ninguém nos apaixona. Há alturas em que o mundo gira no mesmo sentido. Há horas em que me apetece partir para bem longe e correr por algo que nem sei o que é. Como é que podemos ter esta busca por algo no sangue e de repente deixar de a procurar. Como é que fica um escritor se não tiver tema para desenvolver. Como fica um jogador se não tiver jogo. E nisto, os deuses jogam com os dados da minha vida.
Não consigo perceber como tudo à minha volta parece desmoronar-se e afinal, isto são só queixumes de quem não tem mais nada para fazer da vida. Está tudo construído, o futuro esse vejo-o definido.
Sei afinal o que me falta... Quebrar as regras. Cantar de olhos fechados sem saber a letra de côr. Preciso de ter assuntos em que pensar enquanto tento dormir, dançando com a minha cama. Preciso de alguém que me mostre que gosta de alguma coisa em especial. Preciso da Maria a bailoiçar na minha cabeça. Preciso de preencher as prateleiras já limpas. Preciso do ar da minha aldeia. Preciso de uma conversa ao som de uma música e de um café. Hoje não quero mais papeis, nem papelões e papelinhos, fórmulas, derivadas, linfócitos, filos, literatura. Hoje sou só eu e uma chavena de café e um filme. Amanhã é Sábado, o meu dia preferido da semana e por isso, aguardo-o. Sem paragráfos, magias, ternura e açúcar me despeço, cheirando e imaginando e desejando que a lutadora volte, com metas, temas, paixões, conversas e um sorriso melodioso. Porque hoje sou só eu e a minha laranja oca sem vitaminas nem nutrientes.
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