quinta-feira, 20 de março de 2008

first day

Acordei com uma menina de pele branca, com um vestido rosa e macio a chamar-me de Primavera. Estaria a sonhar? Olhei para aquele aglomerado de folhas com números, a que ela chamou de calendário, estava marcado com um arco-íris o número vinte, tinha também um conjunto de letras que tentei ler: Primeiro dia da Primavera. Primeiro dia do quê? Nunca tinha ouvido tal palavra, mas a menina, que devia ter cerca de três anos, disse-me: "Está na hora! Está tudo à tua espera! Não vês que és importante!"
Ora pensei que esta pobre criança só podia estar louca, com febre e alucinações. Coloquei então na sua testa, que me pareceu real, a minha fria mão e não senti nenhum calor a mais.
-"Mas o que é que se passa, não costumas atrasar-te para a festa!"
-"Mas qual festa? Quem és tu? Deixa-me dormir, ainda está frio e os dias são curtos."
Depois de proferir tais palavras, a pequena desapareceu e por momentos, voltei a tentar fechar os cansados olhos.
No meu sonho apareciam muitas crianças de mãos dadas a rirem-se. Apeteceu-me rir. A menina do vestido rosa disse:
"Não sabes quem és. Juntos viemos dizer-te que és a menina doce que todos chamam de pequena. As tuas pernas e os teus braços cresceram, mas o teu coração, continua como sempre cheio de cor, fantasias e amor. Não escondas que és a Primavera dos que estão próximos de ti. Não tapes a meninice que tens nos teus olhos. Não queiras fujir. Sê a Primavera de ti e de alguém. Não deixes de usar uma flor a segurar os fios de cabelo, um vestido colorido e aqueles sapatos de ballet. Precisamos de todas as Primaveras. E de todas que transbordam o cheiro das flores, que cantam o barulho das ondas do mar, que fazem calor com os sorrisos."
Levantei-me. E vesti a roupa que tinha guardada no guarda-fatos para um dia de Primavera. Já sabia a razão porque a guardava.
Sai de rompante, pronta a enfrentar o mundo. Afinal, estavam à espera do meu calor, sorriso e cheiro. Esperavam que o amor deixa-se derreter os corações frios. Cantei desafinada até me doer a voz. Sorri até que os sem-abrigos estivessem confortados com o calor. Alimentei todas as crianças de África com uns carinhos.

Não podemos esconder quem somos debaixo dos lençóis. Não podemos deixar de sorrir só porque alguém nos escondeu o sol.

A natureza é tão bela. Mas a nossa natureza é tão diferente. Nunca nos conseguiriamos ligar. Pode ser que encontres alguém que não seja azeite como eu e se consiga dissolver na tua água.
Continuo amando-te, como nunca fiz, como nunca pensei, mas sonhei.
Não és apenas um sonho de Verão, és uma vida que não se resume a estações.
É pena que não queiras ver o meu florescer e que afastes o cheiro das flores de ti.
Sabes não me quero alar contigo.
Sou ainda uma pequena que precisa de colo de alguém que nunca desista de me contar uma história antes de dormir. Não sei ver, porque o essencial é invisivel aos olhos.
Deixa esse frio que me queres dar dentro de um beijo, carinho e sorriso.
Ele não me fará mal.
Afinal, eu nunca quis correr contra ti, nem mesmo acompanhar-te. Eu precisei do teu colo e não do teu desprezo, do teu calor e do teu beijo que fazia o meu mundo parar. E ainda sinto, esse sabor que me davas, essa segurança, isso que fazia com que o mundo fosse colorido.
Adeus, precisas de me largar. Precisas de me deixar no berço. Eu sei.
Agora percebo. Se quiseres voltar, volta. O meu amor não se apaga, nem precisa de férias.
Sabes, gostei de ler a nossa história e não me arrependo do final que lhe quis juntar. Aprendi que nem tudo tem um final, que nada tem um inicio e um termo. Sou apenas poeira que mora nos corações daqueles que sentem a Primavera.

Amo-te de uma forma estranha, suave e com mistério. Amo-te e sempre te amei.

Até logo.

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